terça-feira, maio 06, 2008

SAUDADES

Ainda hoje a Saudade me invade.
Ainda hoje sinto esta presença que anuncia uma ausência.

A vida vai entrando na rotina
E quando a gente menos atina,
Eis que a Saudade chega sem pedir licença.
Ela vem:
Como ensaio de Escola de Samba em pré-carnaval;
Como batuque de Parada de Sete de Setembro;
Como carro de som apregoando os abacaxis de Marataízes.

São sons e presenças invasivas, tal como
Esta Saudade que chega intrometida.

Tenho saudades de minha irmã.
Tenho saudades de meu pai.

E o que me traz de volta esta Saudade foi a lembrança.
Daquela pipa-estrela enorme que ele fez pra gente.
A única!
E que nós levantamos nos altos céus de Friburgo
E o vento levou para bem longe
Num rolo grosso de barbante idem.

A vida tem dessas coisas:
Aquilo que esquecemos por causa do cotidiano
A Saudade traz de volta,
Numa charrete puxada por dois cavalos:
Um Ébano, como a noite,
E dois olhos brilhantes de mistério-estrela...
Outro Marfim, como a paz de uma
Bandeira frágil
Tremulando neste campo de batalha da existência.

E a charrete que traz a Saudade
Avisa que terá que voltar logo -
E retornar ao passado -
Onde fará sobre-existir o Sonho.

A Saudade me trouxe dentro da charrete, a pipa.
E trouxe o barbante e a folha de seda colorida.
E trouxe o vento e a hora da tarde em que o vento
Funcionou e empinou a pipa no ar.
E trouxe aquela tarde e o vento da tarde no rosto
E também o friozinho que sentia
Recompensado pelo coração que se abria
Em sorrisos com papai ao meu lado, soltando pipa.

A Saudade trouxe junto papai de volta...
Papai grandalhão / papai meninão.
Papai levantando pipa com sua própria mão.
E dando linha pra pipa ir longe;
E dando corda para os nossos sonhos ganharem os céus.
E os nossos sonhos de meninos da Serra
Subiram mais altos que as montanhas e
Descobriram o outro lado da pedra...

Quem disse que Saudade não é bom?
Saudade traz de volta quem a gente ama!
E a Saudade é irmã da Realidade,
Pois ela nos ajuda a não esquecer aqueles
Que um dia deixaram marcas impressas -
Com logótipos de Amor - em nossas vidas.

Rio das Ostras, 14/01/2005 (21h08m).

RESPOSTA A MANUEL BANDEIRA

Teu soneto inglês, o de número dois,
o senhor bem que poderia ter deixado pra depois.
Para o amanhã. Talvez para o infinito.
Talvez, o nunca. E não haveria tal grito!

Este grito de ódio, fruto de uma inadequação...
Quem te culpará por não teres sido fecundado de fé?
E na ausência da fé, sem comunhão, não teres a quem chamar de irmão?
E teres que andar na vida atribulado, sem algo atrelado, que te pusesse de pé?

E quem foi que te disse que certo tremor e certa insegurança,
e a crença e a fé, e a inocência de um coração de criança,
tudo isto não é humano, não pode ser plano pra levar-nos à maturidade?

Ah, Bandeira! Não há como morrer sem lágrimas,
pois a vida não se pode perder como se fora dracmas.
Da dor se faz a força e na vida faz-se o ensaio para a eternidade!

Rio das Ostras, 14/01/2005 (20h11m).

A KATIA CARDOSO SOARES

Não posso crer que há pessoas que só pensem
O amor infinito apenas como um prazer.
Eros castigando corpos que se imprensem
Na volúpia do sexo, a busca do gozo ter.

Ver a mulher apenas como corpo:
Seios, face, bunda ou algo mais...
O espírito, neste ser, dado como morto.
Sem lembranças! O que fica o tempo desfaz!

Fui, certo tempo, peregrino de um amor,
Até ancorar-me calmo neste mar.
Fiz de ti meu porto e por onde for
Minha nau singrando há de te amar.

Se bate forte uma saudade ou um desejo
É sonho achar que volto a ti tão brevemente.
E da angústia faço logo um despejo
Para entrares, neste mar, suavemente.

Não posso crer que há pessoas que só pensem
O amor infinito apenas como um prazer.
Sei que tu existes; meus olhos não mentem.
Sou grato a Deus, porque nos céus, vou te rever.

Macaé, 14/01/2005 (12h30m).

SALMO 23

O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.
Deitar-me faz em verdejantes e lindos pastos
e guia-me manso a águas tranqüilas e faustos
onde o refrigério d’alma, em Deus, me alegrará.

Guia-me nas veredas da justiça por amor
do nome que é sobre todo nome na terra.
Inda que ande em vale de sombra ou guerra
não temerei mal algum. Estás comigo Senhor!

Tua vara e cajado me consolam à mesa,
que diante dos inimigos preparada está.
O óleo na cabeça e o cálice a transbordar

mostram, certos, que misericórdia e gentileza
me seguirão em todos os dias da minha vida,
até habitar na Casa do Senhor ao fim da lida.

Nova Friburgo, 13/01/2005 (7h01m).

CONFLITO DE GERAÇÕES*

Você enfrenta hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Você chora as lágrimas que já derramei
e curte emoções que eu já vivi.

O tempo não pára e a idade é remédio
que cura este mal e absorve este tédio.
No vento o tempo escorre na fronte
da vida o relógio que marca na fonte
da água que corre e vai para o além;
e vai para a frente e nos deixa pra trás.
O tempo desfaz o choro sem rumo,
a lágrima sem colo, a vida sem prumo...

Você enfrenta hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Você verte as lágrimas que eu já vi
Nos olhos cansados de muito homem.

Os ponteiros da vida se ajustam velozes.
Marcam despedidas no ouvir de umas vozes.
E o tempo que anda, coração que balança,
que sacode a poeira juntada na estrada.
Enquanto você impassível assiste
a vida voando no conforto da sacada
da casa de pedras que o tempo deixou.
E seu coração que é de carne e de amor
derrete-se ao som da bandinha da praça,
do coreto que o limo e a lama da raça
deixou para o ontem da vida lembrar,
e o hoje na derme, paixão pra sentir,
enquanto aguarda - se o amanhã existir -
na memória da vida uma história guardar.

Você enfrenta hoje o que passei ontem;
você sente hoje o que ontem senti.
Com o lenço na mão seca lágrimas ao vento.
A areia escorre na ampulheta do tempo.

Enquanto isso:
Aguardamos os filhos de nossos filhos!

Nova Friburgo, 09/01/2005 (15h08m).

*Este poema foi vencedor do Concurso da Editora Litteris.

segunda-feira, março 24, 2008

PROSA EXISTENCIAL

Nunca li uma prosa tão rica
algo tão belo, pleno de amor.
Senti emanar perfume de flor
que ao meu coração adocica.

Li em seus olhos, olhar de paixão.
Em seus lábios, fluir de palavras.
Mirei o brilho d’oiro das lavras,
pepitas de amor em meu coração.

Você me fez sonhar o amanhã.
Sereno, a pensar: - Eu não mereço!
Mas como desejo, agora peço:

Um dia acordar, em bela manhã,
e ver seu lindo corpo ao meu lado.
Então sorrirei apaixonado!

Nova Friburgo, 07/01/2005 (7h55m).

A MUSA VISITANDO MEU FILHO

A Murilo Cardoso Soares

Meu filho, a Musa que te busca, e te faz escrever,
e faz parar o brinquedo, toda algazarra infante,
e te leva a espalhar, pela casa a todo instante
os papéis onde imprimes o que não podes deter.

É a Musa que acomete e toma conta daquele
que certo dia na vida viu algo além da matéria
e fez viagem nos sonhos de uma pureza etérea
amando um Universo que agora passa a ser dele.

Por isso, filho querido, assim que a Musa chegar
e em sua cabecinha sentir sonho se aninhar
e dentro, no coração, palpitar grande esperança!

Corre ágil para a mesa, toma caneta e papel
escreve logo um poema que anuncie seu céu
e deixe a alma fluir embalada de bonança!

Nova Friburgo, 06/01/2005 (7h42m)

DESEJOS ESPIRITUAIS

- Vai, Alma cansada das lutas do mundo,
em busca de alento, um pouco de paz...
Ao encontro de Deus, seu caminho refaz
buscando na vida um sentido profundo!

Ei-la peregrina e bem próxima a Deus,
da angústia se despindo diante do Amor.
No Sagrado buscando encontrar seu favor
para livre, serena, voar para os céus.

- E assim ao crente a Palavra falando,
em coração que ama o jeito mudando
e por fora presente um largo sorriso.

Essa alma voeja nos céus da comunhão
com um Deus que mora em seu coração
e antecipa na Terra o seu Paraíso!

Nova Friburgo, 02/01/2005 (7h55m)

RECOMEÇO

A água que corre
no leito dos rios;
que suave escorre
em filetes e fios;
que explode em cascata
ou se perde na mata;
que cumpre sua sina
em fúria assassina
ao encontro do mar...

É a água de sempre
que na fusão do doce
com o sal da praia
encontra seu jeito
não foge da raia.
Seu jeito singelo
de a vida amar!

A água que esquenta
que não dessedenta
que muda ao calor
e se suaviza
e se vaporiza
e some dos Oceanos
e sobe dos planos
ao encontro dos céus...

É a mesma que volta
em forma de chuva
que infla a uva
e fecunda o amor.
Na natureza solta
gotículas de sonhos
orvalhos nos campos
do amado Senhor!

No ciclo da vida
em líquido ou vapor;
e nas áreas glaciais
em sólido existir;
a água nos ensina
em constante labor
a ser - e nada mais!
E esperar o porvir.

Somos, e é o que basta
no fluir da existência.
Os dias em seu curso,
a busca da sobrevivência.
E cada hora nefasta
e cada dia de clemência
esperando o que vem adiante
neste nosso devir constante!

Nova Friburgo, 01 de janeiro de 2005 (9h15m)

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

BODAS DE PRATA

A Sebastião & Janete – 29/12/2004

Quando dois jovens se amam e querem o casamento
na Terra aplausos ecoam por tão nobre sentimento
que os jovens deixaram brotar, pelas fraldas do coração,
levando-os para o altar, assim plenos de emoção.

Mas de onde vêm os aplausos? Provém dos céus este favor!
Deus aprova cada união, quando feita pelo Senhor.
O casamento perdura, rompe anos, vence lutas,
quando duas almas gêmeas lutam juntas, resolutas.

E agora, gracioso Deus! Quando se vive Jubileu,
que símbolo desta união e brado de consagração
torne-se a Tua Palavra no coração que a recebeu.

E que se veja na face, sinal da tua aprovação,
a síntese: Amor é vida, não morre, também não mata!
Que seja uma nova emoção, estas Bodas, cor de Prata.

Nova Friburgo, 30/12/2004(7h).

NO DIA EM QUE PAPAI SE FOI

A João José Soares Filho (In Memorian)

No dia em que papai se foi
recebi uma árdua tarefa:
Dirigir a cerimônia fúnebre
quando a família e os amigos
celebraríamos a sua vida
diante do Deus da Vida.

Mas como fazê-lo?
Se estava em frangalhos
e meu coração repartido
sofria sua ausência atroz?
Ganhei forças do Espírito
para naqueles últimos instantes
rememorar com os presentes
alguns momentos marcantes.

Papai agora inerte!

Sempre fora o condutor,
o timoneiro resoluto,
conduzindo a Igreja do Senhor.

O culto por sua vida
no dia de sua morte
não teve sua direção.
Eu ali na frente dirigindo o culto
e papai inerte no caixão.

Familiares apresentaram
uma peça de grande valor:
“Os céus declaram!”
Bruno no violino,
João Marcos na viola,
Júnior no clarinete
e Demetrios no sax.
Era o instrumental preferido dele.

Minha irmã mais nova,
Júnia Cláudia,
cantou uma canção que
me emocionou:
“Apenas um Momento!”
Uma música triste, sofrida,
cantada com as cordas da alma
e num filete de voz que
a dor permitia ecoar naquele salão.

No dia em que papai se foi,
na hora daquela despedida final
nesse último adeus na terra
até nosso encontro na pátria celestial:
O coração da gente estava carregado de dor!

Ah! Mas o culto tinha que ser uma celebração.
Era preciso fazer desse momento
o erguer de um belo monumento
de louvor e muita adoração.
É que papai sempre fora evangelista
e nunca perdia de vista
o coração do pecador.
Em tudo estava pregando,
sua vida sempre louvando
e mostrando de Deus o amor.

Por isso no dia em que papai se foi
Cantamos forte, seus hinos:
“Sim, com certeza, meu Senhor aqui está”,
Sou feliz com Jesus”,
“Maravilhosa Graça”,
“Lá no céu”,
“Não venhas tarde”, o hino da sua conversão.
“A bela cidade” e “Cidade Santa”
este último, o da sua predileção.

No dia que papai se foi,
naquele culto de despedida,
os versos de Mirtes Mathias ecoaram no salão.
Carla leu o poema que papai mais gostava
aquele que sempre inspirava sua vida com emoção:
“Agora!”
Se é para amar é preciso fazê-lo agora.
Pois quando o tempo passar, pode não ser a hora!

E naquele dia, no dia em que papai se foi,
durante aquela despedida final
uma sensação ficou no ar:
Embora tivesse vivido um número razoável de anos
e tempo suficiente para um convívio intenso...
A gente fica achando que não fez tudo que tinha que fazer;
que não esboçou todos os sorrisos que tinha que dar;
que não amou todo o amor que deveria amar;
que há ainda muitos beijos e abraços no estoque, para gastar.

Mas, naquele dia, no dia em que papai se foi...
No momento da reflexão pude:
Ler o “Cântico de Vitória”
que aprendera a amar com ele,
que muitas vezes lera a pedido dele,
que a muitos corações consolara por mediação dele.
E, dizer para os presentes, que quando se está em Cristo,
nem a vida e nem a morte
ou coisa de outra sorte
nos separa desse amor
que é Cristo, nosso Senhor!

Nova Friburgo, 29/12/2004(6h45m).

BULA NA POESIA

Foi uma surpresa só,
e curiosidade tamanha...

Abrindo aquele livro -
um livro de poesia tão lindo,
cuja leitura afasta o tédio -
nele encontrei, dobradinha,
uma bula de remédio!

O livro, de primeira edição,
do ano de setenta e quatro
e a bula um tanto encardida
dobrada como marca-páginas
separando as leituras feitas
das outras ainda por fazer...

Mas que remédio era aquele
constante daquela bula?
E eu ali aturdido,
da vida um tanto esquecido
querendo aquilo entender...

Quando entrei naquele sebo
amante do fazer poético
em meio as estantes, patético,
uma voz a me dizer:

- Bula na poesia!

E agora que susto que tomo
ao fazer no livro assédio
e abrindo aquele tomo
encontro logo uma bula:
Uma bula de remédio!

Pego a bula em minha mão
E leio: Microdiol.

Que será?

Na minha ignorância
vou descobrindo a fórmula:
“É um contraceptivo
combinado de uso oral...”
A utilidade do remédio me remexe.
Me comove. Comigo mexe e remove
qualquer sombra de dúvida:
“Um comprimido é tomado
diariamente
sem interrupção por 21 dias...”

É mulher e é jovem quem por último
teve o livro em sua mão...
Como será ou terá sido ela?
“Fazer uma pausa de 7 dias
e reiniciar uma nova cartela...”
“No segundo ou terceiro dia desta
pausa deverá ocorrer a menstruação...”

Mas meu Deus qual a relação
entre a poesia e este tal de Microdiol?
Se poesia é vida e o remédio impede a vida,
de modo que não nasça o sol
para o fruto do relacionamento?

Poesia é vida, é luz,
é liberdade que conduz
para os céus de um sonho imenso!

Poesia é o despertar da existência,
é o desabrochar de flores,
é o despontar de amores,
e o afastar de uma ausência.

Poesia é preenchimento
é varinha de condão
afasta todo o tormento
e acalma o coração.

Na página em que achei a bula
no livro de poesia
no meio da página havia
um escrito feito de amor:
E eu com enorme gula
li o que ali existia
tudo era poesia
que me trazia favor.

Lá estava escrito
com um carinho bem terno.
Resumido e bem dito:
- CAMINHO ETERNO.

Não há qualquer conciliação
entre a morte e a vida
se a sua interrupção
nos impõe uma despedida.
Não haverá caminho eterno
para quem nem pisou no chão
deste solo da existência
que começa no coração.

Não quero fazer libelo
de qualquer contraceptivo
mas desafio a qualquer gente
que seja amante do belo
a que me dê um motivo
para matar a semente!

Sem semente não há vida
não há vida sem amor.
E por toda a minha lida
nas estradas por onde for
não questiono se é anti-ético
o uso do contraceptivo.
Mas, com certeza, antipoético
e não há paliativo
que mude minha opinião,
pois poesia é vida
e habita meu coração!

Nova Friburgo, 29/12/2004(7h41m).

segunda-feira, janeiro 21, 2008

REVERÊNCIA

Num velho livro de sebo
poemas ainda vivos
cantam as canções mais belas
que o poeta pelas janelas
da alma quis mostrar...

E na página introdutória
pôs tão linda dedicatória
em forma de reverência:
“Ao querido amigo,
poeta maior – irmão em Cristo!”

Emocionei-me com o reconhecimento
que o poeta do meu coração
fez ao outro que o antecedeu.
Chamou-o de amigo, poeta e irmão.
Essa era a verdade de seu sentimento!

Foi uma bandeira da poesia cristã
a que Gióia Júnior deixou nesta lição
de humildade e de esperança
quando a Mário Barreto França
reverenciou em seu coração!

Nova Friburgo, 28/12/2004(6h30m).

NO DIA EM QUE PAPAI PARTIU

A João José Soares Filho (In Memorian)

No dia em que papai partiu
a manhã abriu-se em poesia
no sebo de beira de rua
quando a minha alma nua
despiu-se de toda fantasia
e para o sonho se abriu.

Atraído pelos exemplares
passava por aquele lugar
e tinha vontade de entrar
para folhear aqueles livros
vindos de vários lugares.
Vi os livros, seres vivos!

No dia em que papai partiu
isso me aconteceu de fato.
Passeei pelas estantes cheias
e com a literatura nas veias
acerquei-me de todo aparato
e a poesia em mim pariu!

Numa estante escondidinha
a surpresa me encontrou:
“Poemas em feitio de oração”
logo em mim se aninhou.
Então, a tristeza que definha
Sumiu! De alegre o coração.

O livro para mim era raro;
um grande presente de Deus.
Textos do poeta Gióia Júnior.
que me apontam para os céus.
E como não abandono o faro
arrematei-o com precioso amor.

Mas a grande novidade do dia
ainda não foi relatada.
O livro fora ofertado
a outro poeta gigante
e minha alma ofegante
recebeu-o de bom grado.

Um livro de poemas de Gióia?
Em sua primeira edição?
Com autógrafo do autor?
Era coisa muito jóia,
que meu frágil coração
recebeu com muito amor.

Tinha mais naquele livro:
Havia uma dedicatória
feita para outro poeta!
Que não era o Ledo Ivo,
não era a Nélida Pinõn,
e nem mesmo o Drumonnd.

No dia em que papai morreu
ganhei dos céus um presente
e enquanto sua alma partia
a poesia em mim renascia.
Ele foi embora; bem sei eu!
Mas a poesia me fez contente.

O livro que achei no sebo
havia sido dedicado
a Mário Barreto França.
E a graça que eu recebo
neste dia tão delicado
é um banho de esperança.

No dia em que papai partiu
Deus me fez raciocinar:
Enquanto houver poesia
haverá vida na vida
e a vida não será fria
enquanto houver poesia!

Nova Friburgo, 24/12/2004(7h21m).

AMIGO, POETA E IRMÃO

Neste mundo em meus andares
pelas gentes e seus lugares
seja em vida ou plena morte
não sei se restará melhor sorte
para este meu fraco coração
que ser amigo, poeta e irmão.

Para mim isso é o bastante
pois amizade é relacionamento
e poesia fala de sentimento.
Agora a todo instante
já que irmandade lembra fé
terei minha vida de pé!

Mas qual destes virá primeiro:
O amigo, o poeta ou o irmão?
Não importa qual a ordem
o que deve ser certeiro
é que da vida a canção
acabe com toda desordem.

Pode ser que num momento
seja amigo, irmão e poeta
traçando em mim a meta
pela ordem do sentimento.
Mas o que afeta minh’alma
é nos outros espargir calma!

Pode ser que noutro instante
seja irmão, poeta e amigo
que afaste de todo perigo
aquele que me conquistou.
E na vida serei um amante
da esperança que restou.

Em outro frágil momento
pode ser que em mim agite
o poeta, amigo e irmão.
Que consolo, em sofrimento;
alegria, em alma triste;
eu reparta de coração!

Se um dia para alguém for amigo,
se alguém me chamar de poeta
e para um fraco puder ser irmão...
Partirei desta vida e vai comigo
bem presente a marca viva da seta
de um amor que flechou meu coração!

Nova Friburgo, 28/12/2004(6h57m).

NO DIA EM QUE PAPAI MORREU

A João José Soares Filho (In Memorian)

No dia em que papai morreu
O sol não brilhou de teimoso.
O tempo amanheceu chuvoso
No dia em que papai morreu.

A chuva regando a terra.
A gente andando apressado.
As nuvens pairando na Serra.
Poças d’água por todo lado.

E a manhã começou tranqüila:
Papai em seu leito no hospital,
Mas à tarde faríamos uma fila
De emoções neste norte fanal.

No dia em que papai morreu
Ainda havia uma esperança.
O médico nos deu confiança
No dia em que papai morreu.

Sabíamos ser o quadro difícil
Só se Deus o quisesse mudar.
Um milagre seria um edifício
Para o Pai mesmo arquitetar!

Eu não sabia, e nenhum mano,
Qual era de Deus o seu plano.
Naquela manhã tão chuvosa
Que regava o canteiro e a rosa.

No dia em que papai morreu
O canteiro sumiu na chuvarada,
E a rosa sucumbiu despetalada.
Nesse dia uma poesia nasceu.

É que não se pode aprisionar
O perfume da rosa de Deus.
E sua morte que me faz chorar
Leva-me em direção aos céus!

Nova Friburgo, 24/12/2004(7h04m).

NA MANHÃ SEGUINTE

São 6h.
Noemi acorda e quer mamadeira.
Desço com ela no colo até a cozinha, pois ela quer descer.
Coloco-a sobre a cadeira, pois está descalça.
Enquanto preparo o leite, recordo-me de papai.
As lágrimas me vêm aos olhos, sinto saudades!

Noemi, percebendo meu choro
que não quer se conter nem se esconder, é bem enfática:
- Por que você ta chorando?
- To com saudades de meu pai, vovô João.
- Eu vi ele assim (e fez o gesto de mãos cruzadas sobre o peito) ontem...
- É, vovô morreu! Respondo.
- Ele foi pra onde?
- Foi para o céu!
- Ele foi de carro?
- Sim, foi de carro. O carro de Deus!
- E qual é a cor do carro de Deus?
- É branco!
- E ele é grande? Assim (e abriu bem os braços, esticando-os ao máximo)...
- Sim, enorme. Cabe todo mundo que quiser ir.
- Ele foi onde, na mala?
- Não. Ele foi de carona e o motorista é Deus. Nesse carro, minha filha, só entramos de favor. Por isso somos caronas... É Deus que nos dispensa seu imenso favor e...

Desisti. Estava começando a ficar muito teológico para a cabeça dela, que, com apenas quatro anos, arregalava os olhos inquiridores, como quem diz: “Não to entendendo nada!”

Ainda me perguntou:
- Murilo também ta triste?
- Ta!
- E Lucas, ta triste?
- Também, filha!
- E eu, to triste?
- Você também ta, filha! Você gostava do vovô?
- Gostava! Ela disse com firmeza.
- Então você também ta triste, filhinha.

Noemi, uma criança de alma pura, não conseguia entender o que estava se passando e se confundia nos seus sentimentos, ao perceber todos chorando e ela ali, no meio daquela gente, sem entender direito o que estava acontecendo. Dois dias antes havia visto o Lucas chorar muito, quando recebeu a notícia da morte do avô. E, no dia anterior, tinha visto o Murilo também chorando bastante, quando do culto de gratidão a Deus. Mas ela não chorou!

Ainda perguntou:
- Mamãe ta triste?
- Está!

Nova Friburgo, 23/12/2004(6h15).

ÉRAMOS DEZ

A João José Soares Filho (In Memorian)

Éramos dez: Papai, mamãe e oito irmãos.
À moda de futebol de salão, cinco para cada lado.
(Nesta metáfora, papai seria o goleiro dos meninos
e mamãe agarraria para as meninas.)

Os primeiros quatro deu empate em dois a dois
distribuídos assim mesmo:
Júlia e Jerusa. João Marcos e Josué Ebenézer...

Era o que se podia chamar de escadinha:
Aquela filharada pequena
revezando-se ensimesmada na barra da saia da mãe!

Estes quatro primeiros (outro time viria depois),
duas meninas e dois meninos,
são os que Friburgo herdou de outros ares
nos quais papai e mamãe andaram navegando suas esperanças...

Destes, três deles empatavam todo ano,
na idade e no fazer plano.
Foi o que se descobriu depois.

Jerusa, de 1961.
João Marcos, de 62
e Josué Ebenézer, de 63.
Menos de um ano entre eles
que blasonavam por poucos dias
o terem a mesma idade do mais velho.

Este foi o trio sacro que vinte anos depois
foi preparar-se para a Obra do Senhor:
Jerusa como Educadora Religiosa,
João Marcos, Ministro de Música
E Josué Ebenézer, consagrado Pastor.

Se os quatro primeiros anos de ministério
pré-friburguense
deram a papai-mamãe quatro filhos,
os quarenta anos que se seguiram
nesta franja da Serra dos Órgãos
acrescentaram outros quatro.
Nesta seqüência - agora, intercalada –
Jemima e Jason Lúcio. Júnia Cláudia e João José.
Menina e menino, numa casa onde sempre
havia um bebê para ser acarinhado.

Quão bom era morar naquela casa,
abarrotada de gente, criança pra todo lado,
correria e gritaria de folguedos intermináveis!

A gente se esbarrava no outro,
pois o índice de habitantes por metro quadrado
era de uma densidade fantástica!
Embora a Globo nunca tivesse mostrado isso...

Mas, lá se vão catorze anos, que a mais velha se foi.
Júlia, nossa querida mana, deixou-nos naquele dia.
A doença em uma semana, a consumiu.
E também nossa farra e folguedo. Nossa alegria.

Éramos dez, viramos nove.
E o que mais me comove
nesta altura de meu pensar
é que por mais que outro venha
como o Marcos Filipe, filho de Júlia,
ninguém ocupa o seu lugar.

Fica um
b
u
r
a
c
o enorme no coração da gente!

Papai gostava de nomes compostos
- talvez, porque o seu o era.
Dos oito, cinco tinham:
Todos os meninos e a mana mais nova!
Também não abria mão dos nomes bíblicos
E, diga-se de passagem,
(esta frase ele usava muito!)
ele sabia escolhê-los!

Sobre a letra “J” da família toda
- “família firi-fim-fim”
(como ele carinhosamente a chamava) –
isso é outra história que será contada outra hora.

Porque agora,
agora é hora de falar dele, que se foi,
e nos deixou na saudade...

Éramos dez,
tornamo-nos nove
e agora já somos oito.

Papai partiu

e deixou um enorme no coração da gente!
v o
a i
z

Há uma dor profunda
que só quem passa por momento como esse
pode aquilatar!

- Que dor!

- Que aperto!

A cabeça gira, o mundo rodopia...
E a gente tem que encontrar o próprio chão,
pois parece que fomos descalçados de sustentação.

Éramos dez, e agora somos oito.
Mas esta conta não é de uma matemática
simples, exata.
Ela é mais complicada.
E jamais foi sequer esboçada:
Na matemática da vida,
quando há amor,
um mais um é igual a muitos!

Foi assim lá em casa:
Papai e mamãe deram origem
a oito filhos
que multiplicaram-se em dezesseis netos.

É por isso que disse que
esta matemática é complicada
e difícil de ser explicada:
Éramos dez, dois se foram,
e embora seus lugares estejam vazios
- impossível preencher estas lacunas –
nossos corações voejam como plumas
pois a paz de Deus repousa neles.

Dez que eram.
Dois que já foram.
Dezesseis que vieram.
E a progressão é geométrica!

Isso porque no solo de suas existências
foi plantado muito amor.
E sendo Jesus deles Senhor
multiplicaram-se as experiências
e vidas foram salvas,
manhãs se fizeram alvas
ajardinando os céus de hortências
onde perfuma o Cristo nas almas.

Nova Friburgo, 23e24/12/2004(4h10m-6h26m).

PONTO FINAL

A João José Soares Filho (In Memorian)

“Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé” (Apóstolo Paulo)

Acabou.
Já não mais o terei junto a mim...

Papai, que sempre se houvera altaneiro,
gigante na árdua luta contra o mal,
passou seus últimos dias, deitado,
num leito de hospital!

Quantas recordações me vêm à mente
neste momento...
E como se não houvesse tormento,
minha mente em movimento.
Move mente e move manto
e move o mundo. Minto:
Movem-se os chãos do meu pesar!

Parece que o mundo gira
e rodopia cada nesga de esperança do meu ser.
A criança que há em mim renasce
e na roda-gigante do meu parque particular
se alteia e despenca sobre o eixo do mundo
nas recordações do passado que não quer calar.

Vejo papai chegando de viagem:
Fora participar de uma reunião da Junta.
A Convenção precisava dele e ele
emprestava seu ânimo, seu vigor,
sua firmeza doutrinária,
a esta Convenção quase centenária
que caminhava nas mãos do Senhor!

As moedas tilintavam em seus bolsos...
(Ele fazia questão de não pagar
suas pequenas contas com as moedas,
para que as pudesse distribuir a petizada
que a seu redor se aglutinava
sentindo o cheiro de cigarro
que empestava seu paletó
adquirido nos ônibus-sem-lei daqueles tempos!)

E a gente saia correndo, feliz da vida,
com o quinhão que nos cabia
e numa pipa se transformaria,
ou num carretel de linha dez,
pião, barbante, bola de gude
ou qualquer outro folguedo que mude
a rotina do dia nas moedas de papai.

Não mais ouvirei aquela voz grave dizendo:
- “Filho meu, o que faço é para o seu bem!”
E como entender tais palavras
se as vozes do mundo são mais suaves e sedutoras?
E se já naquela altura o tom monocórdio de sua fala
não mais embala meu coração?

Mas o poder de sedução de papai não advém da vida.
Não provêm da vil aparência da insana lida, descabida,
tresloucada, apelativa, de falsa aparência,
com o intuito de derrubar a santa inocência
de uma vida preservada dos males do mundo.
Seu poder de sedução vem de algo mais profundo:
Vem da autoridade da Palavra que ele abrigou na alma
e por toda a sua vida, foi-lhe bússola e palma
a guiar-lhe na geografia da existência.

Tem coisas que eu nunca vi na vida e nem sequer toquei.
Tem outras que aproximando um dia paquerei.
E outras que conhecendo com a alma mergulhei.
É que papai, junto com mamãe, nos ensinando,
a mim e meus irmãos o Caminho apontando,
abriu-nos um Céu onde quem reina é Jesus,
e onde a vida é clara, translúcida, pujante de Luz.

Os pecados miseráveis de um mundo cruel,
vícios e prazeres de amargo gosto de fel,
passaram bem longe de minha juventude!
É que papai com seu exemplo e sua atitude
nos ensinou a escolher logo cedo a boa parte:
Uma vida na dinâmica do Espírito e com arte
tecendo nas teias do tempo os arremates do amor!

Agora que ele se foi, só me resta agradecer
a Deus por ter-me dado um pai com quem aprender
as verdades divinas que me aquecem o coração.
E que eu possa em minha vida, por todos os meus dias,
diante dos dias quentes, enfrentando as noites frias,
aquentar-me com sua fé, tendo a Cristo por Razão.

Nova Friburgo, 22/12/2004(7h23m).

terça-feira, janeiro 01, 2008

EU SÓ PEÇO A DEUS

A João José Soares Filho

1

Eu só peço a Deus
que livre meu pai da dor e do sofrer!

Saí do hospital ainda há pouco
e trago comigo as marcas
de uma noite mal passada
e de um corpo que caminha esperanças
pelas ruas de Friburgo;
sem atrativos para ser saboreado por ninguém!

São dias inseguros esses...
E quem me veja neste estado -
Inexpressivo estado de olhar que se perde no horizonte! -
Rosto amarrotado;
caminhar cambaleante;
haveria de me preferir escondido atrás de um monte
- sejam essas milenares
formações rochosas de minha terra;
- sejam monturos fabricados pelo homem.
Monturos de qualquer coisa
que me escondam de mim mesmo.

Mas, talvez, uma boa alma,
um alguém que me encontre assim desprevenido,
me queira diferente
e me conduza para junto de uma fonte:
Desconcertante
e inesgotável Fonte
que num instante
me tire detrás do monte.

- E jorre sobre mim as águas da esperança!

Porém, nestes inseguros dias:
Em que noites se passam em claro
e dias se fazem trevas.

- Não sei!

Não sei se Deus tem uma jorrança,
qualquer rescaldo de esperança,
por isso clamo por gotas.
- As gotas de sua presença!

Se puder sentir Deus se aproximar
E respingar sobre mim:


As
Gotas,
suaves gotas,
molhadas gotas,
refrescantes gotas.
As cristalinas gotas
que caindo sobre as
desesperanças de
meu ser, atuem
fortemente
para a
paz!


Acalmar-me-ei!

Preciso das gotas
de um líquido puro
de um líquido vital
que me restaurem o sentido da vida
e me tragam de novo o brilho da existência!

Nestes dias tão inseguros,
ao ver meu pai assim:
Tão só,
tão impotente
naquele leito que queria fosse meu...

Eu só peço a Deus
um pouco de misericórdia!


2

Eu só peço a Deus
que dê condições a meu pai de suportar o que lhe cabe.

Já estou cá na lida,
nos embates da vida
e sua caminhada pra frente,
para o amanhã,
pois a vida não pertence a si mesma
nem anda para trás!

Mas eu peço a Deus,
sim, eu só peço a Deus:
Se não for possível tirar-lhe a dor;
aliviar-lhe o sofrimento;
Se não for possível livrá-lo do mal;
fazê-lo suportar o tormento.

E fico eu matutando comigo,
tentando imaginar que cota de sacrifício
ainda se exigirá dele
já nesta idade
quando o vigor da mocidade
de há muito passa longe de seus músculos!
Fragilizados músculos
que se largam dançantes
sustentados pelas peles,
acobertando ossos que doem,
que se esboroam, esfarelando-se
na cruel doença
que
consome
a vida
e a força
da vida
e
muitas
vezes
a crença!


Mas, Senhor!
Nestes dias tão tenebrosos:
De ver meu pai assim
tão assim,
indescritivelmente assim!

Tão largado,
no leito da dor,
da cruel espera,
de uma quimera
que, quem dera!,
pudesse aparecer
pondo um fim ao seu sofrer.

A gente ali presente:
Mamãe tão doentinha,
alquebrada,
mas cumprindo a sua missão de adjutora.
Meus irmãos, todos nós, cumprindo a nossa parte
de se fazer presente,
de assisti-lo.
Mas, mesmo assim:
A dor é dele, meus queridos!
É ele que sente, entende?
É nele que dói, que rói e corrói
este câncer maldito que se instalou sem avisar!
Não sei quem inventou esta ambivalência: maligno / benigno!
- Coisa ruim é sempre má!

Se ele tem que atravessar esse deserto
faça de nossa presença junto ao leito do hospital
um oásis reparador e refrescante,
um oásis restaurador e repousante,
em meio ao seu sofrer!

Eu só peço a Deus
um pouco de alívio para papai!

3

Eu só peço a Deus
que preserve a fé de meu pai por todos os seus dias!
A gente vai para o hospital levar conforto e carinho
Mas a gente sai do hospital abastecido de conforto e carinho.

A gente sabe que ele está sofrendo...
Mas não há murmúrios,
sequer desesperos.
Não há gritos, somente interjeições,
quando a dor é tamanha,
quase impossível de suportar!

- “Ah! Aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh!”

E quando presenciamos este desabafo da dor,
uma pontada forte espeta nossa alma.
Se fosse possível
sofreríamos por ele;
Se fosse possível
deitaríamos naquele leito no lugar dele;
Se fosse possível
até a doença assumiríamos em seu lugar.

- “Ai, meu Pai!”

Ele exclama sentido!

Papai deve estar sofrendo muito.
Que dor lancinante rasga-lhe o corpo
E oblitera a alma?

Meu Deus!
Como é finito o ser humano.
Como somos limitados por nossa própria condição.
Não fora a mensagem do Evangelho,
não fora o resgate do Cristo,
A cruz.
O túmulo.
A ressurreição.

Onde a vitória sobre a maior de todas as nossas inimigas?

É no teu Cristo, ó Deus, que repousa a nossa esperança.
Por isso, oh Pai amado!
No leito de meu pai repousa a tua paz!
Nas dores que ele sente,
sê o bálsamo aliviador!
Nos momentos de vazio,
escuridão e
sofrimento.
Sê tu presente e preenche a vida dele.
Acerca-o de luz e ilumina com dulçor.
Conforta-o com o Espírito,
produza nele alento.

Não permitas que o desespero
de uma dor não assimilada;
Ou as batidas insanas da alma,
cada uma martelada,

Firam seu coração,
maculem sua fé,
aniquilem a esperança,
_ Oh, Jesus de Nazaré!

Eu só peço nesse momento,
quando a fé está ao relento,
e o frio é cortante:

Fortaleça o seu coração,
este coração de gente!
Preencha-o da emoção
de na terra ser um crente!

Para que mesmo na dor,
num leito de hospital,
meu pai de história bonita,
estrada de minha vida,
suporte a todo o mal,
e viva por seu amor!

Eu só peço a Deus
um pouco de ternura e a preservação da fé!

Nova Friburgo, 07/12/2004(13h28m).

TEU CORPO

Teu corpo
é um amontoado
de letras
serpenteando
por entre as brumas
de uma manhã ignóbil.

Teu corpo
é um emaranhado
de palavras
deslocando
os ventos frios
que invadem o pensar.

Teu corpo
é um aglomerado
de frases
ricocheteando
os sonhos frementes
de insones noites de verão.

Teu corpo
é o tamanho do
sentimento
que minha escrita
empresta ágil
aos meus dias sem sol.

Teu corpo
é o contorno enigmático
de um poema
que meus olhos
moldam hipnotizados
na expressão do amar.

Teu corpo
é, um texto curto e lindo:
redondilhas de amor!

Que mais direi?

Teu corpo são
palavras aglutinadas
no monte da sabedoria,
escolhidas dentre as lapidadas
pelo tempo, ao sabor do vento
de meu coração sonhador!

Nova Friburgo, 04/12/2004(22h37m).

SONETO MUSICAL

Quando uma criança chora o leite que não tem
A vida toca uma canção em dó lamurioso.
Mas quando o sono se repete em sonho que não vem.
Mudar e arrepender é canção em ré majestoso!

E nesse instante de voltar a mim; introspecção.
Ouço um acorde em mi que só eu posso decifrar.
E sou tomado por uma busca de satisfação
Que a canção em fá me faz pronto demonstrar.

Da vida, busco o encanto nos braços da melodia.
O brilho, em sol maior, para o espanto não mais ter.
Aqui ou acolá, quero o raiar de um novo dia.

Toco um lá, bem arpejado, nesta ânsia de viver.
Aí descubro que na vida, sendo um ser que é social
Preciso cantar a canção em si para todo meu igual.

Niterói, 23/11/2004(7h45m).

SONETO MÍNIMO COM CHEIRO

Quando te vi
Ao longo da via
Surpreendi
A todos que via.

Disse bem alto
Que era o amor
Que de assalto
Trouxe frescor.

Pois ao te ver
Lembrei-me logo
Do teu perfume.

E me envolver,
A Deus eu rogo.
Subir ao cume.

Niterói, 23/11/2004(6h43m).

SONETO MINIMAMENTE EXISTENTE

O sol, o fá;
Uma canção.
E no sofá
A emoção.

O Eu e Tu;
Uns encontros.
Como tatu
Há espantos.

Construir o nós
Não mais a sós:
Investimento!

Canção ecoa
A gente à toa:
Divertimento!

Niterói, 23/11/2004(7h18m).

SONETO LONGO COM PESAR

Choro todas as mães que perderam seus filhos
E choro os filhos do mundo que mães já não têm.
É que filhos soltos na vida se fazem andarilhos
E mães sem filhos no colo já não são ninguém.

Onde os sinos que dobram do futuro as esperanças,
Se nas cidades o que se ouve é o som da violência?
Mães que perdidos filhos procuram nestas andanças
Pedem um pouco mais de respostas a gaia ciência.

Por isso nas lágrimas de mães vitimadas pela dor
E no brilho translúcido de crias, miragens do amor,
Quero novamente dos homens sonhar sua bonança.

Em meio a angustiados gestos de mãos em desespero
Quero vislumbrar da vida as mães que com tempero
Tornarão a viver em paz no sorriso de sua criança!

Niterói, 23/11/2004(7h03m).

SONETO BREVE COM EMOÇÃO

Nossos caminhos
Se entrecruzaram
Entre os espinhos
Que rosas cheiram.

Senti as dores,
Cada espetada.
Mas aos humores
Não houve nada.

Então, subindo
A estrada da vida
Fui descobrindo:

Amar é belo!
E um grande anelo
Infunde à lida!

Niterói, 23/11/2004(6h49m).

HOJE É O DIA

Tem dia pra tudo
e dias pra todos.
Tem dia pra mudo,
e dia pra surdo,
e dia pros bobos.

Tem dia de sol
e dia de chuva.
Mas sem arrebol
a mão com luva
não chupa uva.

Tem dia de choro
de suor e luta
e muito trabalho.
E dia sem decoro,
jogando baralho.

Tem dia de riso
e bom gargalhar!
Mas dia de pranto
causando espanto
e muito chorar!

Tem dia de férias
passeio no mar
e água de coco.
É bom descansar
senão fico louco.

Mas hoje é seu dia
de tudo um pouco
e sempre muito mais!
Você esparge alegria
e infunde a paz!

Seu dia Katinha
é um dia de sabor:
Quem sabe pinha,
morango ou caju,
quem sabe amor!

Parabéns, minha linda
pelo seu dia de festa!
Alegria mais que esta
de uma graça infinda
lhe apareça na testa.

Hoje é o seu dia
Você existe! É tudo!
Com a sua simpatia
e eu por seu escudo
Ganharemos o mundo!

Nova Friburgo, 22/11/2004(6h58m).

SOPRO

Num instante o nosso encontro se deu.
E a gente olhando para o infinito
Percebe nuvens voando sonhos e
Apalpando ventos;
Bafejando hálitos de vida em nosso amor!

E no sopro forte que bateu em minha face
Senti materializarem-se neste rosto
Flocos de esperança e gotas de alegria,
Tal como o hálito da manhã
Gotejando orvalho sobre a relva fecundada.

Foi um instante mágico como o amanhecer.
Raiava em mim um tempo de novidade
Que sua vida emprestava a esta carcaça
Cansada da existência...
E me entreguei por inteiro ao sonho!

Com os olhos fechados me permiti flutuar.
Queria eternizar as sensações do sopro
Em minha face resplandecente.
Era seu rosto lindo, como de Musa,
E seus lábios pespegando-me um beijo!

Nova Friburgo, 18/11/2004(11h03m).

KATINHA

Minha Katinha, Katinha,
Tu és grande inspiração
Tu és a dona de mim
A dona do meu coração.
Faceira, alegre, rainha,
Perfumada de jasmim.

No quarto estás solitária
Estirada em nossa cama
Em lençol cheio de flores
Como se ouvisse uma ária.
E meu coração que te ama
Deseja os teus amores.

Ingênua, solta e leve.
És meiga e também doce.
Recostada na almofada
Suave qual floco de neve.
E como se a ti fosse
Minha’lma viaja alada.

Minha Katinha, Katinha,
Na cama estás a deitar
O lençol em desalinho
Meu coração faz sonhar.
E vendo-te ali tão sozinha
Anseio por teu carinho.

Teu belo corpo, despojado.
À beira daquela janela.
Cortina branca flutuante
Moldura a formar uma tela.
E o sol que refulge ao lado
Realça o quanto és bela!

Minha Katinha, Katinha,
Tu estás de braços abertos.
Mão ligeiramente caída,
Sobre ombro já se aninha.
E eu com sonhos despertos
Em ti busco acolhida.

Deitada com pés na cama;
O equilíbrio sobre os dedos
Suaves tocando o colchão.
És garça, flutuas, e a chama
Consome, de mim, os medos;
Faíscas de grande paixão.

Nosso quarto em penumbra
Ali tu és facho de luz,
Com cabelos pretos e ondas.
Tu espantas qualquer sombra
E meus sonhos já conduz
Ao amor que em silêncio sondas.

Minha Katinha, Katinha,
Rostinho meigo e suave
Com ar dengoso e mistério.
A vontade que era minha
Viaja em asas qual de ave
Para um plano bem etéreo.

Nariz de entalhe perfeito;
Lábios belos, sensuais:
Um convite para o beijo.
E eu não vejo outro jeito
Para aplacar os meus ais
Senão dos lábios o arpejo.

Nem tu sabes, Katinha
Como te achei tão linda
Vestida como rainha.
Teu corpo largado na cama
E meu olhar que não finda
Pois meu ser inteiro te ama!

Katinha, pequena sereia
Tu és a rosa tão bela,
Jardim que se abre em flor.
Castelos que não são de areia
Num corpo de linda donzela
Um convite para o amor.

Katinha, minha Katinha.
Ligeiramente largada
Entrevendo uma espera.
Minha solidão já definha
Pois és a mulher amada
Que me leva a nova era.

Nova Friburgo, 29/10/2004(21h42m).

EXPERIMENTAÇÃO

“frase: um enxame de palavras
um derrame de lavas
um arame nas travas.
uma irritação
uma emoção.
um filete de água
nos sulcos da vida.
um filete de mágoa
nas costas do mundo.
palavras sem rumo; despedida!
e
o enxame disperso no verso
queixume
de alguém sem ninguém
que sobe, do monte, seu cume.”

Nova Friburgo, 29/10/2004(8h43m).

A VEREDA DO JUSTO

“Mas a vereda do justo é como a luz da aurora,
que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4.18).


A Ana Guimarães

Desde cedo,
compreendemos a vida
e sua caminhada
de ir mais a frente.
Procuramos
nos acostumar
além da vereda
que equilibra a gente.
Puxamos nuvens
pelas mãos.
A caminhada tão terrena
que era um sonho;
um bando
de aves soltas no pensamento.
A vereda da vida,
ao lume incerto, tamanho.
naquele momento.

Desde cedo,
aprendemos também
da vida os seus encaixes.
E como um salmo bíblico
descobrimos que
: ou somos justos ou ímpios!
Somos ou seremos.
A depender das tábuas
s o l t a s
que juntarmos para
a construção desse edifício.
E aí construímos
a nossa vereda,
a vereda do justo.
Da vida, mais que caminho,
pés firmes sobre o
chão da história!

E caminhamos
nossa vereda.
Esta senda apertada
por onde cabe a gente
e mais alguns que
a gente trouxer para o
rebanho.
E ali vemos
cavalo voar e
galopes soltos na noite
transformarem-se
em batidas do bumbo da vitória.
A força do corcel
na vereda de nossa vida
aponta para a manhã de luz!
Se o corcel era de lenda
nossos sonhos, sedução!

Na mente, a vontade
imensa de marcar diferença!
A opção da justiça
pode não ser da maioria
mas é ela que nos
faz sonhar, acreditar,
num mundo melhor.
Por isso a vereda do justo
em busca da luz da aurora.
Essa aurora boreal
de nossas vidas
que marca, de pecados,
despedidas,
e aponta novos caminhos.
Veredas de justiça e amor.
O iluminar das áreas de sombra
trazendo sua divina luz.

E enquanto
caminhamos o horizonte:
seus segredos e mistérios,
pomos na vereda da vida
nossa sorte.
A luz rosicler
marca o começo
desse lindo dia
:o Dia da Justiça.
E a intensidade
dessa luz
enche nossa vida de
alegria.
Ao ponto de
suportamos a própria carga
e levarmos algumas
dos outros.

A vereda do justo,
e sua luz de aurora fulgurante,
vai brilhando cada vez mais e mais...
E tem infância, e pubescência.
E tem juventude e maturidade.
E tem velhice e terceira idade.
E quando se vive, realmente,
a vereda do justo;
a intensidade dessa vida,
e a paz dessa despedida,
nos leva ao Dia Perfeito:
da ausência de dores
sofreres e dissabores.
Ao encontro de Deus,
o Dia Perfeito da vida.
Estrada da santificação,
presença de Deus no coração.

Nova Friburgo, 28/10/2004(11h27m).

sábado, dezembro 22, 2007

VOTA BRASIL

Vota Brasil
Vai escolher seu candidato
O governo fez aparato
Para o povo se expressar.
Vota logo, minha gente!
Escolha com cuidado
Tem muito desmiolado
Se passando por decente.

Vota Brasil
As urnas estão esperando
A democracia clamando
Por sua livre expressão.
Voto é arma de duplo cano
Premia os políticos ordeiros
Aos maus põe no abandono
Vamos acertar os ponteiros!

Vota Brasil
Vota com a consciência
De quem espera um futuro
Feito com ordem e decência.
É preciso refletir
Desta festa participar
E depois na urna ir
Sabendo em quem votar.

Vota meu povo
Vota meu Brasil
Construir um mundo novo
Que não seja mais hostil.
É desejo bem presente
Na vida de cada um
Sonho grande dessa gente
“Um por todos, todos por um!”

Nova Friburgo, 24/10/2004(6h47m).

Razão

Eu gargalho porque o riso brota
E o momento pede esta vazão.
Se sou feliz, não importa:
Está alegre o coração!

Momento espontâneo e forte
Pede um gozo em movimento
Na vida pregando um trote
Este é meu sentimento!

Não sei se pulo ou se grito
Se abraço ou me estilhaço.
Sei que se alguém sopra apito
Me transformo num palhaço.

É que da vida os fulgores
Das sabenças, qualquer razão,
Os meus risos e seus pendores
Fazem de mim bonachão.

Nova Friburgo, 23/10/2004(9h31m).

No meio do sermão

No meio do sermão tinha um apelo
tinha um apelo no meio do sermão
a Palavra de Deus sendo pregada
e o povo abeberando-se da fonte.
Mas no meio do sermão tinha um apelo
no meio, logo após a ilustração.
E o povo boquiaberto e atento,
Escutando as palavras do sermão.

No meio do sermão tinha um apelo
tinha um apelo no meio do sermão
um apelo prévio, suave, antecipado
do qual dependeria o da conclusão.
Mas no meio do sermão e seu apelo
Tinha carro buzinando alto na rua
E tinha criança andando no templo
E tinha adulto olhando para a lua.

No meio do sermão tinha um apelo
tinha um apelo no meio do sermão
o pastor falando doces palavras
e o apelo morrendo com as travas.
Se no meio do sermão e seu apelo
cada crente absorto e com desvelo
escutasse as palavras do Senhor...
No meio do Templo só haveria louvor!

Nova Friburgo, 23/10/2004(8h52m).

Canoa Feita

Eu existo, estou aqui
E uma coisa aprendi:
A vida que é tão boa
Já ensinou para mim
Quantos paus preciso
Pra fazer uma canoa.

Já sendo canoa feita
As ripas em seu lugar
Juntadas na minha vida
Puseram-me a navegar.
Vou singrando mares
A respirar novos ares.

Encaixes foram feitos
Tábuas em profusão
Arremates ajustados
Sofreres, desilusão.
Na vida a canoa vai,
Mas tenho o remo na mão.

Apertos por que passei
Ajustes tão necessários.
Canoa ao sabor do vento
Mergulhos no imaginário.
Reflito neste momento
As vagas que atravessei!

Nova Friburgo, 23/10/2004(10h12m).

As Orquídeas de Friburgo

As meninas que tiveram sonhos abortados por inescrupulosos seqüestradores da inocência.

Pensem nas meninas
Sonhos abortados
Pensem nos meninos
Risos destroçados
Pensem no futuro
Pichações no muro
Rabiscos sem sentido
Em corações feridos.

Pensem na cidade
Prantos ao redor
Pensem no trabalho
Agridem ao menor
E que dizer dos dias
E que falar das noites
Entenebrecidos dias
Noites de fanfarrias.

Mas não se esqueçam
Das orquídeas exóticas
Orquídeas cobiçadas
Que florescem na serra
A serra de minha terra
Friburgo de meu amor
Orquídeas de cápsulas
Lindas, prenhes de flor!

Lembrem-se das meninas
Orquídeas de nossa terra
De belas sementes cheias,
E corações em guerra
Lembrem-se de seus sonhos
O desabrochar das flores
Que a cidade não esqueça
Do amanhã seus terrores.

E que o futuro rompido
Das orquidáceas meninas
Acabe com a hipocrisia
Das gentes desse lugar
Fazendo desta cidade,
Que é pousada de veraneio,
Nos sonhos da mocidade
Sorrisos como esteio.

Nova Friburgo, 23/10/2004(9h12m).

Teologia de um pecador

Eu, filho do adultério e da transgressão,
Esparro coadjuvante de meus pais,
Sofro, desde a protogênese destes ais,
Da natureza pecaminosa, o coração!

Já dizia o sábio pai da Igreja de Cristo:
Que a natureza humana se fez em queda,
A alma vendendo por qualquer moeda.
E Deus, ali na cruz, sofrendo mais que isto!

Não quero, a este mundo vil, mais pertencer,
Se as dores do pecado ainda tiver que sofrer
Entre a carne e o espírito, declararei guerra.

Assim, hei de em luta ingente, uma batalha,
O pecado envolver bem preso na mortalha
E para Deus viver, como salvo nesta Terra.

Nova Friburgo, 22/10/2004(20h51m).

Teófilo

Assim que nasceu o Teófilo
O pai cobrindo-o com pano
Quis fazer do filho um sacro
Tinha medo do profano.

Levou-o pra Igreja logo,
Antes de completar ano
Queria-o perto do sacro
E bem longe do profano.

O menino desde cedo
Nem sonhava com o arcano
Acostumado com o sacro
Nem sabia do profano.

Mas o menino crescendo
Conviveu com o mundano
Desconfiando do sacro
Interessou-se no profano.

Este foi um risco claro
Para o qual não teve plano
Esquecendo-se do sacro
Atolou-se no profano.

A música cativou o moço
Mas nada a ver com o piano
Este, um instrumento sacro,
Queria algo mais profano.

Assim aos poucos Teófilo
De um coração espartano
Não mais conhecia o sacro
Só queria saber do profano.

Até que naquele simulacro
Percebendo entrar pelo cano
Sentiu saudades do sacro
Desgostou-se com o profano.

E Deus que socorre o fraco
Com amor do qual me ufano
Tornou-o amante do sacro
Esquecido do profano.

Nova Friburgo, 22/10/2004(8h15m).

Homilética

Estou cheio desses trejeitos estudados
Desse bom-mocismo comportado.
Um jeito de funcionário público empertigado,
Misturado com pinta de executivo americano,
E uma porção de outras baboseiras
De certos pastores modernosos.

Estou cheio dessa técnica apressada
Numa empáfia dita celestial
Que se apresenta acima do bem e o do mal
E engole os incautos da fé!
Abaixo todos aqueles que não entenderam nada
E até hoje mandam três pontos com exórdio e peroração.

Estou cheio dessa homilética barata,
Dessa hermenêutica apressada
Interesseira,
Política,
Chacrinha e
Raquítica.
De toda homilética que capitula ante
Os assombros provocados pelos seus algozes.

Quero antes a simplicidade dos homens do povo,
A singeleza dos corações poetas,
As falas mansas de profetas,
A invadir-me com sua paz!
Quero as loucas palavras de fé,
Aquelas que despertam risos,
Mas que constroem paraísos
Em cada coração crente.

Não quero mais saber dessas homilias.
Meu sentido é para a Vida!

Nova Friburgo, 22/10/2004(21h14m).

Neli

No dia em que Neli nasceu,
Sua mãe olhou para a lua...
Viu um brilho na sua casa,
Viu um outro em sua rua.

O brilho que ela viu,
Pôs indagação bem crua...
Ficaria ela em casa,
Ou fugiria pra rua?

É que o brilho que assistiu,
Deixou-a prostrada e nua...
A porta aberta de casa,
Apontava para a rua...

Faíscas no seu olhar,
Realidade bem sua...
Abandonou sua casa,
E sumiu no meio da rua...

Nova Friburgo, 21/10/2004(22h17m).

Os Litotes

Eram três os irmãos Litotes:
João, Maria e José.
João tinha cara de bobo,
Maria não saía da pia,
José não era nada tolo.
Então o que ele é?

Esperto era esse José!
E se eram três os Litotes,
Que eram os outros dois?
Maria ficou pra titia,
Saberemos disso depois.
João não era nada sábio!

Burro esse tal de João!
José fazia contraponto,
No seio da família Litote.
Maria na cabeça tinha fita.
Mas já tinha levado calote.
Ela não era nada bonita!

Era feia a Maria Litote!
E os três Litotes irmãos,
Tornaram-se mais irmanados:
João com ar de deboche,
Maria lavando suas mãos,
E José pelos dois amparado!

Nova Friburgo, 21/10/2004(22h05m).

Joel Fiel

Quando Joel se converteu,
Foi para a Igreja orar...
Pensou ser sacro o Universo,
Pôs-se, por isso, a amar.

Meditando logo descobriu:
Nem só de pão vive o homem...
Queria as coisas do Espírito,
Que ferrugens não consomem...

Tanto orou em ardente vigília,
Que na Casa de Deus adormeceu...
E no sono, um sonho de um dia,
Habitar nas moradas do Céu...

E Joel descobriu logo cedo,
A luta que estava a travar...
Sua carne impregnada de medo,
E o espírito querendo adorar...

Mas Joel, de alcunha Fiel,
Vencendo as batalhas da vida...
Não tirou o olhar do seu Céu,
Para o mundo fez despedida...

Nova Friburgo, 21/10/2004(21h30m).

RISOS ESPONTÂNEOS

Risos espontâneos
são percepções suaves
de lindas coisas
acontecendo ao redor.

Vêm em forma de esboço
e num esgar de lábios
que se abrem sutilmente
a desnudar alvos dentes.

São suaves sopros
de ventos refrescantes
a bafejar brisas doces
como de bacantes.

E na percepção serena
de faces transmudadas
os risos se fazem acordos
de almas aladas.

Mas os risos dos amantes
são algo mais profundo.
É coceirinha na planta dos pés
e no púbis do mundo.

E quando eles se instalam
tomando conta de seu corpo
em forte gargalhar estalam
e corpos se enlaçam no amar.

Nova Friburgo, 15/10/2004(7h).

quinta-feira, dezembro 13, 2007

INTERROGAÇÃO

Por dentro,
um vazio:
Sentimento
de não-ser!

Um gosto
amargo
na boca
sem saber.

Emoção
em fúria.
É incúria
do coração!

Sentimento
travado,
magoado,
no momento.

Quem sou?

Nova Friburgo, 14/10/2004(7h05m).

O Poeta

O poeta
com o seu farol de milha
é como um homine-automobile:
Enxerga longe
através das luzes
acesas do inconsciente.

Não lhe perturba
o cair da noite,
nem o breu que se abate
sobre a humanidade.
Ele fuça no profundo
em busca de sanidade.
O poeta é descobridor
de mundos perdidos;
farejador de aromas
desconhecidos.
E constrói um
traçado de significação.
Ele tem na alma
o gérmen da inquietação,
e seu canto ecoa
solene, voando
nas asas acolhedoras
do pássaro do amor.

O poeta alimenta
o mundo com seu pólen,
espargindo a renovação
através de palavras-símbolo,
que fecundam
como giestas no seu coração.

Murinele, 10/10/2004(16h30m).

Sentimento Universal

A Yanes e Aline em seu casamento no dia 09/10/2004.

“Amor: um sentimento sem dono,
um canto de exaltação.
Idioma universal
que provoca reação.
E numa cadeia sistêmica
com paz ou muita polêmica
em toda tribo e língua,
povo, raça e nação,
chega com jeito fraterno.
Amor, sentimento eterno,
que expande o coração!”

“Amor: testemunho d’esperança,
um canto ao que é possível.
E no meio da bonança ou
da borrasca e do irascível,
é ele que com seu jeito
expulsa todo o defeito
e se impõe sem mágoa ou dor.
É que na estrada da vida
o amor é sentimento nobre
que atinge rico e pobre
e a todos propõe seu favor!”

“Amor: um amálgama de sonhos,
um raio de luz multicor.
E nos dias mais bisonhos,
Nos tropeços e chorar.
Não existe forma mais linda,
Rica, bela e benfazeja
para um dia que se finda
que o jeito pessoal de amar.
Presente em todos os lugares
Onde haja um coração florido
O amor passeia em pomares!”

Nova Friburgo, 09/10/2004(12h41m).

ENQUANTO BUSCAS

Enquanto buscas
aflitivamente
teu amor...

Enquanto investes
loucamente,
queres ter favor...

Enquanto a vida
escorrega sofrida
entrededos...
E o desalento
no sofrimento
impõe seus medos!

Sonhe!

Sonhe e deixes a vida ser!

Enquanto sonhas
lembra-te que o belo
é acessível...
Enquanto sonhas
em teu anelo
faças o possível...

Para conquistar
através do amar
o teu desejo...
Sem medo ou pejo
sonhe os sonhos
do teu coração!

E, enquanto sonhas,
lembra-te segura
que eu existo!

Nova Friburgo, 06/10/2004(7h28m).

ÊXTASE

Abri o livro e vi o texto:
Uma carta mal dobrada na página cem.
Chamou-me a atenção logo a grafia.
Uma escrita forte, tinta azul,
estradas seguras para pensamentos
leves e soltos que fluíam
como água de fonte divina.

Meus olhos percorriam as letras
enxergando as palavras do coração delas.
Era como se o palpitar de tantas
emoções provocassem uma pulsação
mais prolongada: paternogênesis.

Quem visse a cena de fora
perceberia meus olhos brilhando,
grudados no papel amarfanhado,
como que a querer extrair por
osmose todo o seu conteúdo
e armazená-lo na memória do
coração.

Era assim que me sentia
ao ler em casa sua poesia!

Itaboraí, 21/08/2004 (12h40m).

quarta-feira, dezembro 12, 2007

TRÍPLICE CANTO

Nesta manhã tão bonita
Com o sol no céu a brilhar.
O tríplice canto da vida
Meu coração quer cantar.
É canto de alma cheia
De alma serena e bela.
Amor correndo na veia
Saindo pela janela!

A vida na infância tem
Um belo canto de espera.
Canção que embala o neném
E a infância por ele anela.
Abrigado no coração
É um canto de criança.
Surge em forma de canção
E seu nome é esperança!

Mas a vida tem outro canto
Que surge na alma jovem.
Ele afasta todo o espanto
E as tristezas removem.
É um canto que desabrocha
Suave, envolvente, uma flor.
Sedimenta como a rocha
E atende por amor!

Mas o tempo vai passando,
A vida produz canto novo.
Num coração que amando
Espera pelo renovo.
Com o passar dos anos,
No auge, maturidade,
O som que vem dos arcanos
É o canto da saudade!

Por isso enquanto posso
Cantar os cantos da vida.
Da esperança me aposso
Não quero fazer despedida!
Em amor quero viver
Fazendo de tudo canção.
Pra saudades sempre ter
Nas voltas do meu coração!

Cachoeiras de Macacu, 01 de julho de 2004 (11h40m)

SONETO A BRIZOLA

Luminar de um país sem homens
Enfeixados no construir a história.
Orfandade onde grassam fomes
Nesta quadra que se faz memória.

Ele foi mais que um democrata
Lutador numa vil realidade.
Distanciando-se do ouro e prata
Em sua luta pela legalidade.

Mais que isso, agora que partiu
Os esforços devem permanecer
Ultimando um novo Brasil.

Resta, então, nunca esquecer,
Ao lembrar o trabalhismo seu:
BRIZOLA vive, ele não morreu!

Nova Friburgo, 01 de julho de 2004 (20h)

CANÇÃO DE ADORAÇÃO

Eu nasci num lar de luz,
Fulgente luz.
E Jesus habita lá!
Onde se cantam hinos,
Com os meninos.
Um sonho de Shangri-lá!

Aquelas tardes tão belas,
Saudades delas.
Oh quão bom era sonhar.
Imaginava o futuro,
Nada escuro.
Deus iria iluminar!

Nos cultos que se fazia
Orar seria
Uma expressão de fé.
Nos cultos naquela sala
Toda fala
Ao Deus que sempre “É”!

Papai, mamãe, sempre atentos,
Nos momentos
De ler alto a Escritura.
E todos juntos louvando,
Com fé orando.
Seguíamos a partitura!

É por isso que hoje trago
Com afago.
Uma canção de amor.
Adoro a Deus com a alma,
Sinto calma.
Na santa paz do Senhor!

Cachoeiras de Macacu, 01 de julho de 2004 (19h38m)

SONETO DO AMOR DIVINO

Este amor que em mim hoje é tudo,
amor que é belo, pois vindo de Deus.
É fonte serena de paz, sobretudo,
quando me assiste nos sonhos meus.

De todas as virtudes que o homem herdou
daquele que lhe deu imagem e semelhança
o amor é aquela que mais o honrou
produzindo na alma e no corpo bonança.

Por isso do amor não quero me afastar,
pois quanto mais perto dele eu estiver
mais perto de Deus passarei a existir.

Assim, enquanto em mim, vida houver
e por Deus este amor eu bem sentir
a Deus adorar será forma de amar.

Niterói, 25 de junho de 2004 (14h30m)

SONETO DA ESPERA

Por te amar meu coração investe
todo o tempo do mundo e a lua.
Em esperança minh’alma reveste
de um brilho, inspiração só tua!

Então aguardo no silêncio d’alma
pequeno aceno, gesto que é só teu.
Se desencontros, há suave calma
nos sofrimentos que já esqueceu.

Mas se agora em instante sublime,
no aguardar confirmação do amor,
ouvir ainda pedido de uma espera:

Esperarei, inda que em mim a dor,
sinalize sonhos, grande Quimera.
A esperança é amor que se redime.

São Gonçalo, 25 de junho de 2004 (9h)

quarta-feira, dezembro 05, 2007

SONETO DA ALEGRIA

A alegria é filha solteira do vento:
Aparece quando bem entender...
Faísca incandescente num momento
carvão esfarelado ao se perceber!

Produz risos e gargalhar estonteante,
quando cercada de estímulos externos.
Mas sua expressão se torna pujante
ao ser alimentada de gestos fraternos.

Porém, ela pode ser mui traiçoeira
no rosto e na alma de quem sonha
e na vida se faz ermitão nefelibata.

Ela é graça que a vida acompanha
e ao coração despreparado maltrata
se a vida não encarar sobranceira.

Niterói, 25 de junho de 2004 (12h10m)

MORENA CIGANA

Morena cigana,
faces rosadas.
Linda donzela,
mulher amada.
Meu ser a ama,
almas aladas.
Sem dor ou ais,
conto de fada.

Das bochechas
eu colho rosas.
De seus lábios
sinto o mel.
E nas madeixas
como de moças
fonte de bios
viajo aos céus!

Este perfume
da juventude
sinto fresco
no seu regaço.
Se o ciúme
numa atitude
for grotesco:
Que é que faço?

A quero tanto
me cativou
sonho consigo
e seu amor.
E no acalanto
se encontrou
em mim, abrigo
lhe dou u’a flor.

De amor sublime
que traz encanto
expulsa espanto
e qualquer dor.
Assim exprime
felicidade
e mocidade
por onde for...

Nova Friburgo, 16 de junho de 2004 (5h52m)

MONTAGEM

Tome os pinos da palavra
e a tábua do conhecimento.
Junte as letras, tire a trava
sem haver esquecimento.

Cada peça em seu lugar
monte o texto em edifício.
Artigo e sujeito a se achar,
o adjetivo é um artifício!

Deve-se começar na base
ir subindo em profusão.
Para que a obra não atrase
ponha siso co’a emoção!

Não esqueça os parafusos
ponha todos em seu lugar.
Palavras têm próprios usos
se bem quiser comunicar.

Tudo então arrumadinho
- cada peça e seu encaixe -
um poema bem limpinho
deve ser o que se ache!

Quando tudo já montado:
Advérbio e preposição.
Há um canto entoado
nas fraldas do coração!

E agora bem disposto:
O construtor e sua obra...
Apresenta, mostra o rosto,
se é poema não soçobra.

Com o Idioma e sua verve
torna vivo o vernáculo.
No cenário a alma ferve
ela o leva ao Cenáculo!

Nova Friburgo, 13 de junho de 2004 (7h32m)

DISCURSO SOLTO

Preciso falar alguma coisa
Isto me está engasgado,
Mas não sei o que falar.
Só sei que preciso começar
E atirar pra todo lado...

As palavras me apertam
A garganta e o coração.
Preciso falar alguma coisa
Dizer algo para o mundo
Não sei se será profundo
Ou se mera e vã paixão!

Levo as mãos à garganta
Sinto aperto e sufoco.
Preciso falar algo forte
Mas percebo que estou rouco.
Falo, grito, ninguém escuta.
Estou ficando biruta?

Liberdade, ainda que tarde.
Minha noite já chegou.
Quem pensou no descanso
Ainda não se encontrou.
Pois em mim a febre arde
E não encontro remanso.

Igualdade para todos
Acabar com a injustiça
Oportunidade de trabalho
Um fim na vida postiça.
É preciso uma razão
Pra fugir dessa ilusão!

Fraternidade entre os homens
Paz a toda humanidade
Foi a promessa do Cristo
Não só aos de boa-vontade!
Um esgar de comunhão
É minha ingente oração!

Nova Friburgo, 13 de junho de 2004 (7h49m)

DÊ UM SINAL

Dê um sinal de vida,
aliás, tu és minha vida...

Dê um sinal de amor,
Estou disposto a ir
por onde for!

Dê um sinal de paz,
pois no mundo
a gente mesmo faz!

Dê um sinal de esperança,
algo belo e puro,
como sonho de criança!

Dê um sinal de alegria,
não posso esperar
ficar sem sol por mais um dia!

Dê um sinal de amizade,
correrei em sua busca
pelas ruas da cidade!

Dê um sinal de emoção,
pois em ti vejo
grande poder de atração!

Nova Friburgo, 16 de junho de 2004 (5h52m)

terça-feira, dezembro 04, 2007

ICE GOSPEL

Eu repudio o gospel! O gospel-grana,
O gospel-fantasia!
A indigesta trama de uma burguesia!
O pastor-empresário! O pastor-vitrine!
O pastor que sendo carismático, neo ou pentecostal,
É promotor do ego, mesmo sendo tradicional.

Eu repudio as comunidades ardilosas!
Os baronatos de néon! Os bíblias safados! Os doutores de aluguel!
Que se escondem em templos feitos por mãos humanas;
E se apropriam de ofertas de formas nada espartanas,
Dizendo-se faladores de línguas mais que estrangeiras:
Dialetos de anjos caídos nas armadilhas do deus Marketing.

Eu repudio o gospel-fajuto!
A imbecil imitação da América, americanização esotérica.
Pra inglês ver e tupiniquim entretecer!
Perceba a realidade de nossa gente!
Nossos templos abarrotados de desesperados!
Loucos de raiva! E o Sol da justiça passa longe
Desses arraiais mundanos travestidos de cristandade!

Ai! Se gospel fosse outra coisa!
Do jeito que é no Brasil, não passa de um frio cortante
No coração da fé, no coração do povo!
Ice gospel a matar a ingênua criança do Cristo!

Nova Friburgo, 12 de junho de 2004 (16h52m)

ESTRADA DA VIDA

Ao Pr. Clésio e Noemia (Bodas de Ouro)

Antes, naquele distante inverno,
Em encontros sonhadores
Vocês deixaram seus olhares
Cruzarem da vida os seus ares.
Trocaram um abraço fraterno
Que os enchendo de amores
Levou-os depressa ao altar:
O amor plantando um sonhar!

Com certeza um lindo casamento
Aconteceu naquele dia doze.
Nas asas do sonho, num momento,
Foi como saborear algo doce...
Fazendo juras de amor eterno,
Sorrindo alegres na hora do “sim!”,
Acalentados por um coração terno
Uniram-se para um amor sem-fim.

Ah, quantos casais fazem juras no altar:
Tantos casam e logo se descasam.
Descansam no comodismo do não-lutar,
E o divórcio suas vidas arrasam!
Vocês atravessaram o Túnel do Tempo
Romperam os vendavais da vida atroz
Voaram felizes nas asas do Vento
Cantando o amor em uníssona voz!

Agora, desfrutam a alegria da raça,
Vivem juntos o privilégio dos eleitos,
Que do amor produzindo seus efeitos,
Representa superabundante Graça!
Bodas de Ouro é comemoração rara
E a vida lhes reservou esta ventura
Em festa especial, valiosa e cara,
Embebida por laços de ternura.

Antes, quando se uniram no amor,
Invocaram a bênção de Deus o Pai.
Queriam a proteção bendita do Senhor
Sobre os corações, o lar e tudo mais.
Agora, comparecem para agradecer,
Os caminhos todos percorridos...
Foram cinqüenta anos de prazer,
Em família muito bem vividos.

Antes, jovens, olhavam o futuro,
Com olhar risonho de esperança!
Enxergavam para além do muro
Dos problemas tidos na andança!
Agora, volvem ao seu passado,
Pensamento que a vida esconde:
Recordando ao lado do amado,
O amor que o coração expande!

Antes era só vontade e sonho
Em futuro ridente de promessas.
Mesmo que por muito estranho
Do amanhã queriam pressas!
Hoje, cheios de lindas saudades,
Os momentos estão a recordar.
Realizações de suas mocidades
Impulsos venturosos do amar.

Antes foi árdua a semeadura
Em batalha ingente pela vida.
Criando filhos numa lida dura
De si mesmo a vida esquecida.
Agora, do alto de uma vida feita,
Caminhos longos nesta estrada.
Festa risonha pela boa colheita
Ao lado sempre da pessoa amada.

É por isso que antes precisavam
Para a vida muitos conselheiros.
Enquanto seus corações amavam
Nos sonhos todos sobranceiros.
Agora, aos filhos, netos e demais,
Na questão sublime do casamento
Podem dar conselhos, algo mais,
Que ajudem em todo sentimento!

É que na estrada da vida conjugal
Caminhando altivos e com Deus.
Venceram as batalhas contra o mal
Elevando glórias para os céus!
Cala alto, fundo, um binômio,
Que da vida é vosso segredo:
“Eu” e “Tu” unido em matrimônio
Fez o “Nós” amado desde cedo!

Nova Friburgo, 12 de junho de 2004 (11h21m)

CANTO AO AMOR!

Eu canto o amor! O amor-verdadeiro,
aquele que nasceu primeiro!
O amor que tem Deus como modelo!
Amor de Deus! Amor em nós!
Esse amor que mesmo diante da vida atroz
apresenta-se no meio da gente,
e só a gente mesmo sente e entende
a qualidade de seu desvelo!

Eu canto a existência do amor!
Assim como canto a existência da flor:
Tem seu encanto, tem germinação.
E no mistério da vida, sobre-lida,
é o amor que nos traz inspiração...
Vê-lo desabrochar, crescer e florescer:
É como sorriso frágil, tênue esboço,
que desemboca no gargalhar de um moço!

Eu canto a presença do amor!
Amor que sinto na epiderme fremente,
nos sonhos e pensamentos de quem
em si acalenta um coração crente
e parte em busca do “Amém”!
Canto a vida linda que o amor traz
e canto a amizade e o dom fraterno
fruto da comunhão com o Eterno!

Vida ao Amor!
Vida aos que ainda acreditam no amor!
Vida aos que caminham na estrada florida
por onde Deus transita.
Ponto de partida e chegada,
caminho seguro da estrada,
onde quem ama encontra a Vida!

Nova Friburgo, 12 de junho de 2004 (8h11m)

O QUE PROCURAS?

Jovem, o que procuras?
Vejo-te tão atordoado
parecendo estressado
sem sentido pra viver!
Se procuras um emprego
um trabalho, um futuro,
não ficarás no escuro,
tu vais sobreviver...

Mas, jovem, que procuras?
Esta interrogação renitente
que se aloca em tua mente
e tanto te faz amofinar...
Não estarias em busca
de algo muito impossível
enquanto a vida impassível
te convida para amar?

Que procuras meu jovem?
De tão importante na vida
Que te põe numa sobre-lida
insana e quase desumana?
Será que estás num caminho
seguro, certo e promissor?
Está, da rosa, o espinho
afastando-te do amor?

Meu jovem a vida é perfume,
é cheiro que convida a sonhar.
É brisa suave no rostovonta
de suprema de amar.
Se procuras na vida um amigo,
se procuras na vida um amor,
convite para vires comigo
e sentir o perfume da flor...

É convite suave e sereno
que na alma esparge um alento.
Deixa a lida, um pouco, ao meno
se te afasta de qualquer sofrimento.
Quero ver-te sorrir para a vida,
quero ver-te amar sem sofrer,
dos receios fazer despedida
há algo que precisas saber!

Por trás da montanha dos sonhos,
além deste Sol que ainda brilha,
se esconde um tesouro mui rico
de quem a Esperança é filha!
Abre os olhos para o mundo ao redor,
veja os encantos desta vida de amor!
Dos sustos, a angústia, é o menor
não carregues a frustração seja qual for.

Encontre o amor que procuras,
encontre a paz que precisas.
Viva, então, a alegria presente,
algo bom que só a gente sente!
Amar é o mais nobre sentimento
aquele do qual sempre se quer ter,
e é isto que sinto no momento
e que me faz tranqüilo viver!

Nova Friburgo, 08 de junho de 2004 (7h16m)

DESEJOS DE MÃE

A Milena Marini

Minha filha querida
Que hoje faz anos
E se enche de planos
Nos sonhos da vida.
Quero hoje te dizer
Que tu és para mim
Não apenas um ser
Mas amor sem fim.

És herança de Deus
Filha da promessa
A mostrar os céus
Num jeito sem pressa.
Pois em nosso lar
És a filha primeira
Que da vida o amar
Deu fruto a macieira.

De amor profundo
Que seus pais tiveram
E aqui neste mundo
A sorrir acolheram.
Um pequeno ser
Tão frágil e tão belo.
Que no lar veio ter
Expressão de anelo.

Minha filha querida
Neste dia que termina
Ao fazeres despedida
Do tempo de menina.
Quero a Deus orar,
Pelo futuro interceder,
E a Deus suplicar,
Para bênçãos conceder.

Tua mãe te ama muito
E tem sonhos de alegria
E todo o meu intuito
É ver nascer novo dia.
Pra tua vida nesta terra,
Teu futuro de mulher,
Sonhos que encerras
Do jeito que a vida quer.

Mas, há algo que preciso
Falar do coração:
Minha filha tenha siso,
Não esqueça a oração!
O mundo está difícil
É preciso sabedoria.
Construa um edifício
Faça dele moradia.

Um edifício de amor
Onde Deus está presente
E Jesus sendo Senhor
Faça-te melhor crente.
Aqueça seu coração
Neste edifício de fé
E de Deus a comunhão
Mantenha tua vida de pé!

Nova Friburgo, 01 de junho de 2004 (11h30m)

BATISTAS

A J. J. Soares Filho

O pastor independente
disputa com o pastor nacional
quem é melhor que o pastor brasileiro.

Entrementes, o pastor brasileiro
põe-se de joelhos no chão e ora.

Nova Friburgo, 23 de maio de 2004 (6h23m)

ALGO POÉTICO

Escrevi um verso,
Débil verso,
Algo poético.

Nele havia umas linhas,
Parcas linhas.
Senti-me patético.

Nem cheguei a saborear as palavras,
Tortas palavras,
Sem chantili ou cerejas.

O que me fascinou então,
E que fascínio!
Foram as sensações.

E inebriado por tantos revoluteios,
Os sentidos ardendo em febre,
Tirei minhas conclusões:

Deve ser poesia!
É lindo de ler e de ouvir.
Deve ser poesia!
Funciona como música aos ouvidos.

É!
Deve ser...
Como ter certeza dessa sensação tão suave,
Dessa invasão tão forte e presença contagiante?

Somente entendendo a vida,
Seu sentido calcado no ético.
Acrescido da musicalidade das palavras:
Algo poético.

Nova Friburgo, 19 de maio de 2004 (11h33m)

VOCÊ É...

Você é um sonho de outono
que fecundado no meu coração,
aguarda o momento certo
para marcar a estação.
Mas você é mais que um sonho de outono:
Você é uma árvore no meu pomar.
Você é uma menina linda e suave,
que numa manhã de sol aprendi a amar!

Você é um lindo rosto à minha frente,
que me inspira doces emoções.
E me leva a devaneios etéreos
na união de nossos corações.
Mas você é mais que um lindo rosto:
Você é uma sereia no meu mar.
Você é uma menina linda e suave,
que numa manhã de sol aprendi a amar!

Você é um livro aberto no sumário,
para que eu possa ler com sofreguidão
todos os poemas ali entalhados:
Luz d'alma que expulsa a escuridão.
Mas você é mais que um poema a cada manhã:
Você é literatura viva flanando no ar.
Você é uma menina linda e suave,
que numa manhã de sol aprendi a amar!

Nova Friburgo, 10 de maio de 2004 (7h30m)

quarta-feira, novembro 14, 2007

CONFISSÕES

Sempre dizer pra ti! Sempre dizer um som,
Amor! De um só amor! Tu, esperando o tom,
Suave! E em minha voz teus ouvidos atentos,
Aumentando a atenção, expulsando ventos...

E num dia lindo! De um sol lindo! Teu rosto a ver
Reluzente, no esplendor da juventude, perceber:
Anjos voando soltos nas asas da emoção.
Que palpita dos reflexos de teu coração.

Estrelas saltando! Teu olhar abastecendo o céu
De brilho, faz sorrir o filho, animar o réu.
Tão linda que és, tão linda a refletir.
Raios de esperança num simples existir.

E aqui dentro do peito, magnetizado amor!
Ante semblante cálido, paixão rascante,
Seja o que for! Espero-te, amada amante.
E sei que darei um jeito de expulsar a dor!

Nós dois... E, entre a gente, esta forte ausência!
Provocando emoções, a desejar clemência,
Eliminar os espaços, diminuir distância.
Entre corpos que abrigam coração em ânsia.

Eu, com a emoção brotando a flor da pele.
Os ruídos impeditivos minha alma repele.
Então, digo suave, edulcorado canto:
- Te amo! Linda musa, meu acalanto!

Nova Friburgo, 29/04/2004 (7h05m).

O CHAMADO

A Cleir Gonçalves dos Santos

Uma voz. De onde vem?
O pequeno Samuel não sabe.
É diferente, soa grave, forte.
E o discurso que contém
É conteúdo que não cabe
Num coração em corte.

Sangra. A dor é grande.
A voz que fala conclama
Tímpanos não acostumados...
A emoção no imo expande
E no pequeno ser a chama
Arde. Conceitos abalados.

A voz o chama pelo nome
E ele a sente bem audível
Naquele leito revolvido.
O menino, de Deus tem fome.
Sonha o sonho que é possível
No peito arqueado, comovido.

A voz é repetitiva, faz eco.
Ouve-a chamar de novo
E Samuel pensa que é Eli.
Sente aperto com o repeteco
Mas sabe que para o renovo
Precisa dizer: “Eis-me aqui!”

E o homem de Deus orienta:
“Volta ao silêncio da comunhão
E quando ouvires a voz a falar
Diga: Fala Senhor!” Tenta!
É melhor não andar na contramão
Quando a voz de Deus chamar.

Então, se submete tranqüilo,
Esperando um Deus pessoal
Relacionar-se com a Criação.
Sem entender direito aquilo
Parte em busca de um ideal
Que acalenta em seu coração.

Friburgo, 20/03/2004 (21h30m).

ORGULHO FERIDO

Para Fábio Costa

“Que é o homem para que te lembres dele?”
Indaga o texto sagrado, diante da vida vã.
E a gente passa por este mundo, moribundo,
Achando que é dono de tudo, do amanhã.
Mas Deus com seu jeito diferente, sábio,
Açoita nosso eu e faz bater forte o peito
Na moldura de uma lágrima, que insiste em não cair,
Tiritando frágil nos cílios da dor.
E o coração dorido, fraturado,
Encolhe-se na amargura do eu ferido
Destruído, pelo próprio amor!

Ah, existência! Como achar que é bela a vida,
Se nem tudo acontece como sonhamos?
Que lição Deus quer ensinar dessa lida
Se por tudo, e em tudo, dela apanhamos?
Mas é preciso descer do insano pedestal
Para onde subimos sem Deus no coração
E como isto impõe sobre a gente grande mal,
Pois nos iludimos com a altura da sensação:
Inglória, profana, abstrata, irreal.
Pensamos ter poder e força, porém os vermes interiores
Nos consomem lépidos, gemendo e arrotando,
Podridões dos escarros de nossos pecados.

É melhor apanhar de Deus do que da vida
Pois o quebrantar dos corações diante do Pai
É trajetória de esperança e vitória.
Enquanto a vida, com seus desassossegos,
Escreve em nossa carne, outra história,
Deus vai pegando os lugares rasgados,
Remendados por nós mesmos, ao sabor da dor.
E vai costurando, consertando, amalgamando,
De tal forma que onde havia cratera, vulcão e lava,
Agora tem a cura pela sua Palavra
Tem o bálsamo do seu grande amor.

Nova Friburgo, 13/03/2004 (6h15m).

O BARBEIRO DO CALIFÓRNIA

Para Édson Linhares

Com a navalha na mão e um brilho no olhar
O barbeiro trabalha, silente, a espreitar:
O cliente que chega, a criança rebelde,
A mãe que repreende o filho travesso.
E ele seguro, da profissão hereditária,
Põe abaixo os pelos do rapaz em máquina zero...

O olhar no espelho acompanha a desbastada.
Interrogação.
Quem é este que surge além do corte?

O barbeiro do Califórnia fala pouco.
Frases interjetivas,
Confirmações do assombro do cliente...

Com a navalha na mão, aos retoques finais,
Ele se lança ante olhares assustados...
Contemplo seu trabalho meticuloso
Percebo que está chegando minha vez:
1, 2, 3, 4,
Clientes antes de mim.
Afinal, foram duas horas de espera.
Tesoura.
Na mão, a navalha intercala com a tesoura.
E tem também o pente, a escova, o...

Minha vez está chegando!
Descubro-me meio triste ante a cena:
Sou paciente!
Sim, sou paciente!
Submeter-me-ei aos caprichos do destino,
À ética profissional;
Aos atributos da estética de ocasião
Do barbeiro do Califórnia.

Fará barba e cabelo
Dará os retoques em meu pelo
Sairei mais leve daquele salão.
E lembrarei que a vida
Essa vida de sábado brasileiro
É mais que uma ilha,
É um arquipélago de emoções,
Vivências e relações.
De cuja estória ebúrnea
Manterei na memória
Pois não posso esquecer,
Nem deixar fenecer,
O barbeiro do Jardim Califórnia...

Nova Friburgo, 13/03/2004 (12h35m).

INSTANTE POÉTICO

Fui tomado por forte sentimento
Em instante angélico de vida.
Instado a captar num só momento
Toda a poesia de forma resumida.

Queria apreender num só segundo
A força da beleza numa palavra.
Fazer do poema todo meu mundo
Da alegria e destreza, minha lavra.

Mas como traduzir toda a emoção
De quando a poesia em nós se instala?
Dei amplas asas a fértil imaginação
E movimento intenso à minha fala.

Pensei no lindo vôo do beija-flor
E suas vibrantes acrobacias aéreas
No equilíbrio da cena, um esplendor!
Divaguei por viagens mui etéreas.

Imagem recorrente, em minha mente,
Do pequeno pássaro, belo colibri.
Fez-se plena, congelada, renitente,
Que da alma, a poesia, logo abri.

Ah, mas a vida tem outras poesias:
Tem o mar, o sol, as estrelas e a lua.
Tem amor passeando em outras vias
E meninos com folguedos pela rua.

O instante poético é permanente
Brota dentro do peito e arrebata
O fôlego que inspira o ser da gente
E nos leva aos páramos da ribalta.

É por isso que é difícil esta foto
Do instante poético na retina.
Ao poeta não resta outro moto
Que a vida, linda vida, e sua sina.

O poeta percebe em tudo poesia:
No sorriso, na criança, também na flor.
Forte emoção que sua alma arrepia
Que importa se é branco, se tem cor?

Mas o poeta ainda tem tarefa
Mais difícil que o fazer poético:
Do trigo dourado, servir um efa
Ao leitor que se mostra cético.

O que o poeta conseguiu enxergar
Com os olhos da inspiração
Aos leitores ele quer passar
Como presente de seu coração.

Nova Friburgo, 13/03/2004 (11h35m).

EU

Eu sou aquele que no mundo sonha
Eu sou aquele que não espera o luar
Estou entre os que a vida acompanha
Abrindo as janelas para a lua entrar.

Então, sou irmão do Sonho e o busco
Com intensidade de fazer mudança.
Não me assusto com o lusco-fusco
Pois nele me fio para minha andança.

Em noite estrelada ou de vil negror
Na terra molhada, tempestade ou calor.
Das névoas me afirmo, ali estou eu.
A luz que me inspira, me leva ao céu.

Eu que me encontro no sereno da manhã
Nas folhas orvalhadas de florido jardim.
Vislumbro as cores de um novo amanhã
Que a natureza, suave, faz brotar em mim.

Sou alguém, então, a passar pelo mundo.
Porta-voz, arauto, de um canto de paz.
Espargindo fé, um sentido mais profundo,
Que a esperança em mim para todos traz.

E no dia derradeiro, de minha estada aqui,
A mensagem última, em letras amarelas,
Esteja em forma de epitáfio, junto a mim:
“Foi alguém que sonhou com as estrelas!”

Nova Friburgo, 13/03/2004 (5h51m).

SENTIDO

Existo porque o eu em mim insiste
Em pensar como um filósofo.
Cogito, mas ai da existência,
A caber numa caixa-de-fósforos.

Dos sonhos, não mais que nuvens,
Penumbras do coração febril.
Batimentos, alegorias pulsantes,
Nas ante-salas do Hospital.

Da vida, corpo insano a devir.
Artérias das cidades do eu.
Viagens, nas profundezas do ser.
Aproximações emocionadas.

Do futuro, sabenças e não crenças.
Escaramuças desarticuladas.
Arrepios, embatucados nas dermes,
Expressões difusas na pele ensolarada.

Da continuidade, esperma sobre a terra,
Germinando a existência do amanhã.
Seivas férteis, no solo eclipsado.
Que se abre para o riso do Sol.

Nova Friburgo, 08/03/2004 (10h30m).

BASTANTE MULHER!

Nascer, aparecer neste mundo,
Saber-se um ser em formação
Brincar, sorrir, respirar fundo,
Descobrir-se poema e canção.
Quem recitará para os montes,
As estrofes da vida, o amor?
Tu, mulher, água das fontes,
Seiva, perfume, pétala e flor.

Crescer, andar, aprumar-se,
No espelho da vida descobrir:
É melhor, pra todos, doar-se.
Pois tens o dom de repartir...
Encarar qualquer realidade
Perceber-se sonho de mulher
E nos anos sutis da mocidade
Abraçar o que a vida lhe der.

Inteirar-se de árido mundo,
Ambivalente, até traiçoeiro.
Buscando sentido profundo
Forjando humor seresteiro.
Pra encarar difícil desdita,
Machismos incontroláveis,
A mulher na vida restrita
Supera em tons amigáveis.

Vencer qualquer preconceito,
Sentimentos que impõem dor,
Construindo, fazendo direito,
Os detalhes pintados de amor.
No lar, a mulher tão presente,
Preenche os espaços da vida.
Que se um dia tornar-se ausente
Será hora de fazer despedida.

Tu mulher, és luta em pessoa!
Heroína de romances vivenciais.
Enfrentando a práxis numa boa
Sublimando da vida os seus ais.
E assim, tu constróis a família,
Este instituto criado por Deus.
E na vida vencendo a porfia
Alimenta o caminho dos céus.

Se um dia, no meio dos sonhos,
No meio da vida, da luta, do ser.
Perguntar em contornos medonhos
Que faço aqui, que é ser mulher?
Não esqueças que nobre missão
Abraçastes sem mesmo perceber.
Nela pusestes o teu coração
E importa ser bastante mulher!

Nova Friburgo, 07/03/2004 (7h30m).

Espantos

A Aliazibe Guimarães Silva

Não tem jeito! Somos concorrentes do tempo...
Sopra o vento, e a gente sente o frio que teima em vir.
Mas não é o frio que assusta mais; nem o vento. É o espanto!
O espanto do tempo que passa; nem tanto do que já foi.
Este a gente viveu... E, modéstia às favas, bem!
Com Deus. Com a família. Com a Igreja.

Mas o tempo pra frente...
Ah, este anda ficando cada vez mais curto.
E se isso assusta? Sim, um pouco!
Nem tanto pelo que ainda há de vir, advir...
Pois nossas vidas estão nas mãos do Pai.
Mas, pelo que já foi sonhado e ainda não se concretizou...
Porque sonho sonhado é sonho existente,
Mesmo que ainda não realizado.

Então, teimamos em materializar nossos sonhos,
Como se não fôssemos, sem o que ainda é matéria de devaneios...
Ah, mas quem manda sonhar?! Reclamariam os opositores...
Mas sonhar é bom e alegra a vida.
E tem mais: Nós somos teimosos mesmo!
Insistimos em querer realizar;
Em ir mais além do medíocre;
Em fazer o melhor; buscar o belo;
E até em rir da nossa teimosia...
Só não nos contentamos em não buscar,
Em ficar sem alcançar a melodia mais linda
Através das notas que harmonizam a existência...

E o vento insiste em bater em nossas frontes cansadas.
Ainda bem!
Pois enquanto pudermos senti-lo, haverá vida;
E enquanto houver vento haverá poesia:
Principalmente com o vento que sopra dentro...

O vento que sopra na face é suave,
Gostoso e musical!
Esparge notas de emoções em nosso rosto.
Mas o vento que sopra dentro bate no coração,
E passeia pela alma. Esse é celestial!
E espalha suaves melodias de amor, em nosso íntimo.
Que alimentam a poesia;
Fabricam os sonhos;
E nos transportam aos páramos
Distantes, onde o Sol brilha mais forte,
E a gente se aquece de amor.
É o amor de Deus...

Podemos, então, ir ao encontro do Amanhã!

Nova Friburgo, 02/03/2004 (17h20m).

QUE SERÁ DESTA MENINA?

"Quem será pois este menino? (Lc 1.66)

Um dia ganhei lindo presente,
Do mais belo que se possa ter.
Veio em forma de menina,
Frágil ser que me ilumina,
Com sorrisos, alvos, de neve,
Em olhar, de luz, que aquece.
E já não tenho em mente
Fórmula ideal pra agradecer.

É que quem assim se torna
Objeto de bênção tamanha.
Não contém: Alegria entorna,
E a gratidão acompanha!
Pois não há nada no mundo,
Que represente a esperança.
Nem algo mais profundo,
Que um sonho de criança!

Quão belo é a cada dia,
Senti-la no quarto a chegar.
Enquanto a mão aparecia
Na porta, e a voz a falar:
“Papai, faz mamadeira!”
Olhando a filha que é minha
Que no meu colo se aninha
Abandono a pasmaceira.

O sonho da minha pequena:
Um passeio à beira-mar.
Pede pouco a morena:
A praia, a areia, o sonhar...
Brinquedo, boneca e bala,
Trazem-lhe satisfação!
São mimos que a vida embala,
Nas voltas de seu coração.

Mas eu, como pai, tão coruja:
Que ama, se alegra e sorri...
Da vida, a incerteza, intruja,
Que aparece por aqui.
Pergunta em tom reticente:
“Que será desta menina?”
E suplica, ao Pai, clemente:
O mal de sua vida elimina!

Niterói, 27/02/2004 (12h05m).