segunda-feira, agosto 14, 2017

CARREGO COMIGO NESTE ANDAR…

Uma Bíblia
gasta do manuseio
uns caramelos
coloridos
folhetos carimbados
nomes vários
de alguma gente
em papel registrados

minha esperança
de discípulo andarilho
uma crença
forjada na experiência
o sabor doce
da alegria infante
um espaço de acolhimento
amor de Deus
cheiro de gente
a busca do avivamento

minha pregação
de discípulo andarilho

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
04/08/2017 (04h03min).

TERRAS FÉRTEIS

Se eu pegasse
um punhado seu
nas mãos
sentiria a vida.
O cheiro molhado
me persegue a alma
e ouço
o canto dos pássaros
que se abrigam
nas folhagens
das árvores
do futuro.
E enxergo
as crianças
que brincam
debaixo das copas
dessas árvores
imaginárias...

Vem, discípulo
escuta no meu sonho
o silêncio respeitoso
das mudas
que germinam
no coração boa terra.

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
04/08/2017 (03h52min). 

sexta-feira, agosto 11, 2017

O DISCIPULADO NÃO REALIZADO

No cerne da minha memória viva
veio à tona o discipulado não realizado
a vida que não veio me incomoda
como ondas que batem na praia e voltam ao mar

os abraços que não dei, sorrisos recolhidos
orações não apresentadas aos céus
bíblias fechadas, estudos em branco
o que fazer da comunhão
que ficou guardada na dispensa do coração?

o discipulado não realizado engole os feitos
e a alegria não sentida, o amor retido
celebração da vitória adiada sem data
vêm à memória toldando o sonho

há palavras que se recolhem como gato arisco
sutil sumiço no entardecer da vida
em que o pensar toma-se de nostalgia
e se tenta resgatar a fé perdida no caminho

como se faz importante neste instante
aquilo que não se concretizou
o amigo que foi cedo demais
os RDs que não aconteceram jamais

a gratidão assume o controle da emoção
em coração que percebe o quanto Deus fez
e quantas vidas foram resgatadas
porque vida na vida foi seu discipular

mas se acende forte na memória
a complexa interrogação do não feito
a vida que se foi em qualquer atalho
de um belo discipulado não realizado.

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
28/07/2017 (05h50min).

AS EMOÇÕES

“E ao semear…” (Mt 13.4a).

Muita coisa acontece
quando se põe a semear.
Se amar se aprende amando;
colher se aprende semeando.
Você pode não saber fazer plantio hoje
se tenta, as sementes criam asas e voam
lhe falta intimidade com o solo
e parece difícil a caminhada sobre este chão.
Mas, experimente abrir o coração
sonhar com a colheita logo adiante
você verá que não haverá celeiro bastante
para abrigar a quantidade de sonhos
transformados em realizações.
O sol por cima ou qualquer chuva incômoda
nem o chão duro, de difícil acesso
serão impedimentos
se soprarem ventos
de uma paz, brisa leve
que sua alma leve
pros campos floridos
prontos pra colheita.
Nada substitui esta emoção
e os sentimentos, do semeador.
Só ao semear
é que se abre a porta
(e isto é o que importa)
para a experiência,
desse doce amor.
Só ao semear
quando se põe de pé
é que se atravessa
e nada há que impeça
a avenida da fé.
Só ao semear
se enxerga a pujança
é que se vislumbra
(e não há penumbra)
a firme esperança.
O que se vive ao semear
não se vive em outro lugar.
O lugar do crente é na semeadura.
Deus escreveu esta partitura
para o crente executar doce canção de vida.
É com paixão pelas almas
que se experimenta o amor de Deus.
É compaixão posta em prática
que acende a chama da fé.
É com o Pai neste chão
que se adentra a porta da esperança
e se percebe que se alcança
um hino de adoração.
Já é feliz quem semeia,
pois de sementes, mão cheia
cheio se fará o coração
quanto menos sementes na mão.
Só é feliz o que vive
a experiência diária
de ir aos solos das gentes
à procura da boa terra.
O cristão não sobrevive
sem compor esta ária
doces frutos, os presentes
que o bom coração encerra.

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
17/07/2017 (05h17min).

sábado, agosto 05, 2017

O REFLEXO E A ORIGINALIDADE

“Assim resplandeça a vossa luz…” (Mt 5.16).

Refletido no meu ser
(em meio ao Universo)
o Criador encontra verso
que teima em ser poesia.

A imagem e semelhança
sua presença me alcança
e mesmo quando disperso
Deus promove o reverso
e em mim se faz bonança.

Trago em mim as marcas
no meu corpo as mexidas
no espírito, as investidas –
de Deus pra me formar.

Já não sou mais o mesmo
cansado de andar a esmo
agora trago este brilho
a glória do bondoso Filho
que na cruz provou me amar.

Sei ser planeta sem luz
própria luz que dissemine;
dependo do Sol do meio-dia
que primeiro me ilumine
pra aclarar outras vidas.

Sigo assim refletindo
a luz que recebi do Cristo
e nisto constante insisto
eu nasci pra iluminar.

Quero assim resplandecer
nestes simples atos meus
a glória que eu recebi
deste meu bondoso Deus.
Para que os homens todos
enxerguem em mim as obras
e as vejam abundantes,
abençoando com sobras.

De onde fachos de luz
dessa luz incandescente
reflitam o meu Jesus
em meio a tanta gente
abençoada com dádivas
que vêm do Pai das luzes.

Do alto, este meu Sol
minha vida acompanha
e a graça que me invade
é colossal, é tamanha;
que traz saúde ao corpo
e meu pobre ser afaga.
Deus é a luz que aquece
Ilumina, guia, esclarece
é a luz que não se apaga.

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
30/06/2017 (05h56min).


SELO E PENHOR

Nossa salvação
confirma-se
com uma experiência
(pessoal e intransferível)
do tamanho da fé

a vida eterna
se alcança com um segredo
que se revela
no cotidiano da vida

isso não se aprende
nos manuais de evangelismo
nem nos panfletos
de propaganda religiosa

o selo que confirma isso
é o Espírito
que comunica com o nosso
ele é o penhor que garante
e o fruto como evidência
mostra que somos do Senhor

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
30/06/2017 (05h34min).

domingo, julho 30, 2017

AQUI DENTRO DE MIM…

Aqui dentro de mim
bem diferente do que se passa em certos cultos
não surgiu uma carruagem de fogo
pra me arrebatar num redemoinho
ao contrário, minha vida espiralada
era imã para o furacão
que me atormentava a alma
esperava em pé à porta da igreja
a força para entrar e louvar a Deus
mas o vento impetuoso me paralisava
e os esforços que fazia eram em vão

de dentro do templo ecoava o coro angelical
de um povo feliz que louvava com temor
nem aos poucos me sentia compelido
a sair da apatia espiritual
que as pressões do mundo exerciam
bem que podia ser um disfarce cruel
da natureza pecaminosa que insistia em florir

não sou eu com a minha bíblia e minha fé
que vencerei estas forças impossíveis
mas será o Deus que me fortalece
que da fraqueza me faz tirar breve prece
de socorro em meio à angústia
quem de branco como o Rei da Glória
há de invadir a minha história
e reescrever meus caminhos
com a tinta do sangue lá da cruz
faço-me folha branca nas mãos de Jesus
para a escrita de vida com final feliz
sou outra pessoa fora dos poemas, enfim
sou outro alguém para além dos sermões
já não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
28/06/2017 (05h10min).

E A CERTEZA…

E a certeza
que cada manhã é um recomeço
que se ainda não chegou a nossa vez
o sono vai expirar
o prazo de validade vai acabar
da dormência rebelde
da prostração difusa
o labirinto da alma

a manhã só é ilusão
para quem adormeceu vazio
e não tem cara para acordar
veste as calças
mas o sorriso do rosto
é máscara de Moisés
para enganar o povo com a glória extinta

já se desceu do Monte do Senhor
já se afastou da presença do Onipotente
já se mergulhou no vazio
e ainda se quer aparentar
o brilho de uma glória emprestada
que já não mais se põe revelada

mas, quando se quer aprender,
quando se abre a vida para o novo
e em Deus se busca o renovo
do culto fica algo
da mensagem, um desafio
do louvor, uma inspiração
um novo ânimo se instala
e Deus dá segunda chance
e a gente quer voltar a louvar
quer retornar àquela Casa de Cultos
rever velhos amigos
reinventar a vida
e deixar Deus no controle

É possível querer de novo!

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
28/06/2017 (04h56min). 

quarta-feira, julho 26, 2017

TEM DIAS QUE O DIA…

Tem dias que o dia parece que não existiu
que o relógio da vida parou e os sinos não badalaram
e os sons ouvidos não ecoam músicas
e os cheiros não eram de alimentos
e os sabores trocaram de bocas
e o louvor não saiu do templo
(porque nele também não entrou)
e se pressentiu a morte
e se viu de perto a noite
e se molhou de chuvas
e se viu desabar a casa
e os corpos tombaram
e as famílias se desestruturaram
na ruína do sonho
na sequidão do amor

tem dias que o ponto de ônibus está vazio
o lava-jato não molha o chão
o hot-dog da esquina não fumega
e não há maior preocupação
se anda e não se vai a lugar algum
se escreve e a folha permanece em branco
se abraça e não há aconchego de corpos

tem dias que não são só as nuvens que estão cinzas
tem dias que o pensamento adormece
a boca se cala
e o louvor engasga a comunhão

nestes dias, Deus socorre
o socorro bem presente na angústia
e a gente acorda novo, de novo,
no dia seguinte a estes dias.

Josué Ebenézer Rio de Janeiro,
22/06/2017 (15h31min).

A HISTÓRIA NOS PERSEGUE A ALMA…

A história no persegue a alma
o passado é sombra logo ali atrás
a tradição anda rente a nós
como os que armam emboscadas
para surpreender os incautos da fé
o futuro da igreja lança pedras neste chão
anda à frente como os velocistas olímpicos
que aproximam o futuro

o futuro do cristianismo
ainda é uma marca
a ser impressa nas atas das igrejas,
nos discos rígidos dos computadores,
nos livros, panfletos e folders
mas, acima de tudo, nos rotos rostos,
nas famílias restauradas e nos
conclaves abertos à experimentação da fé
que organizarão a sabedoria

o passado precisa ser visto
para se construir um futuro melhor
o passado precisa ser revisto:
não podemos nos atolar na lama do desespero

pássaros mudam de lugar
ante o susto da presença alheia
pelo voo da liberdade natural;
homens permanecem em seu lugar
pelo medo do desconhecido

o sonho nasce do pensamento
a ação, do sonho
a mudança, da fé
o cristianismo voa nas asas do Espírito
cães não herdam o Reino dos Céus.

Josué Ebenézer Rio de Janeiro,
22/06/2017 (15h16min).

SOLITUDINE

“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho.
E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”
(Paul Tillich).


Às vezes se está muito só,
quando se está muito sol:
iluminando a vida d’outros
e vivendo na opacidade!

Um pouco de solidão é preciso
não aquela de se sentir só
e ansiar a presença de alguém.
Mas aquela de se estar em retiro
poético retiro de quem –
se afastou para se aproximar
de si mesmo e mais ninguém.

Esta é a solidão dos sábios
que se afastam para pensar.
Rejeitando alfarrábios;
com a alma conversar.

É a solidão dos que buscam
a voz do silêncio puro
sem ruídos tecnológicos.
Dos que almejam o fluxo
dos saberes que lustram
os pensamentos lógicos.

A solidão de pessoas
faz sofrer e desgarrar
expondo a alma carente.
Coisa triste estas garoas
que neblinam o aproximar
em quem quer estar com gente.

Coisa triste a solidão
de quem não queria isso
queria outro coração
para se ter compromisso.
A solidão forçada
é triste de se ver.
A pior pessoa amada
não se consegue deter.

Às vezes se consegue ficar
solitário na multidão.
Há quem saiba se isolar
escondendo sua razão.
Mas quando se quer o vazio
de pessoas e suas falas
e alguém quebra este ócio
não tem como rejeitá-las.

A solidão do claustro
pode aproximar de Deus,
mas, que se largue o fausto
dos corações ateus.

Para o preso em solitária
a solidão é castigo
que aflige a alma pária
necessitada de abrigo.

Estes tempos agitados
de frenesi e roldão
deixam os seres enlaçados
em teias de comunicação.
É difícil de se soltar
e alcançar a solidão
dos que querem encontrar
alguma paz no coração.

Se há tempo para tudo
há tempo de se estar só
e há tempo, sobretudo,
pra chorar e sentir dó:
dos solitários do mundo
que amargam a solidão
mas têm sonho profundo
de viver outra emoção.
Dos oprimidos da vida
que desejam se afastar
para fazer despedida
das garras do mal estar.

Hoje as redes sociais
nos interligam a quem
não conhecemos jamais.
Estes tempos modernosos
que apenas entretém
acabam sendo penosos.

Precisamos da reclusão
pra refazer o pensar.
Precisamos da oração
pra reaprender a amar.
Precisamos de um tempo
para estar a sós com Deus.
Para sentir do doce Vento
os caminhos do adeus.

As despedidas do mundo
dos compromissos vazios
que causam uns arrepios
em nosso ser infecundo.
O afastar do vil pecado
em busca da sanidade
é o aproximar do Amado
que propõe a santidade.

Diga não à solidão da fuga
pelas graças do alambique
que deixam sozinho ao chão.
E, como disse Paul Tillich,
há uma glória que não refuga
em outro tipo de solidão.

Que a solidão logo chegue
no coração de quem quer
um tempo pra refletir.
Que a solidão se despregue
daquele que muito requer
um alguém para se unir.

A linguagem é dinâmica
e criou uma semântica
pra definir a solidão:
é a dor de estar sozinho.
Se há glória nesta atitude
o seu nome é solitude!

Josué Ebenézer Nova Friburgo,
19/05/2017 (14h50min)
na fila do banco.