segunda-feira, fevereiro 06, 2017

VERSOS URBANOS – VI

Abaixe o vidro do carro
deixe entrar um frescor;
a cidade da serra tem verde
tem ar que alivia sua dor.

Saia da clausura do carro
do casulo que te esconde;
abandone os olhos incertos
mire onde esperança aponte.

Aprenda a gostar de gente
cada um tem seu problema;
amar, como a si, ao próximo
é a resposta ao seu dilema.

Vá ao encontro do mundo
nem que seja por um olhar;
o valor da vida mais profundo
é descobrir o poder do amar.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
17/01/2017 (06h17min).

domingo, fevereiro 05, 2017

VERSOS URBANOS – V

Poematizar não é só
colocar palavras no papel
ou arrefecer o domínio da luz
da tela do seu computador
com centenas de palavras
que no poema têm luz própria.
É aprender a ler também
no rosto das pessoas
o sofrimento do coração.
Saia de si mesmo
e olhe as gentes transeuntes
olhe os carros e o movimento
olhe as ruas e as casas.
Da janela veja o sonho
abra a porta, saia pra vida.
Aprenda a ler nas linhas
alfabetizar-se no amor
acima de tudo, nas entrelinhas,
faça isso, por favor!
Obedeça o rito, siga a seta
entenda o mundo ao derredor
estabeleça pra si a meta
de construir um mundo melhor.
Leia as ruas, leia as casas
a cidade em movimento
é poeta o que recolhe
da vida os seus momentos.
Leia as mentes, entenda o ser
alcance do mundo a significação
o poeta quer saber
por onde anda o sentido
onde se encontra a vida
da existência, que razão?
pra fazer de tudo um poema
– um lírico poema escrito –
nas páginas de seu coração.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
17/01/2017 (06h10min).

VERSOS URBANOS – IV

Sempre achei boa a ideia
de “ar-livre” na praça
por ajuntar o povo da igreja
junto ao coreto onde tantas
vezes vi Deus passeando.
Era um tempo sem a pressão
desses dias malfadados
em que o politicamente correto
impõe um jeito de ser.
Era um tempo mais democrático
em que se podia ocupar
o espaço público
para se expor ideias religiosas.
E havia velhos e jovens
e adolescentes e crianças barulhentas
e havia caixa de som e música
e a prédica ecoava
pelo som do alto-falante
“à você, amigo, que está
ao alcance de nossa voz”.
A ideia da igreja viva,
fora das quatro paredes do templo,
solta na pracinha ao “ar-livre”,
dando a cara a tapa,
para um mundo sem Deus
é mais que simbólica:
é emblemática
de um tempo que não volta mais...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
16/01/2017 (06h07min).

VERSOS URBANOS – III

A multidão esconde o indivíduo
e não duvido que a solidão
se esconde na multidão.
Pessoas caminham pelas calçadas
e o formigueiro humano
sinaliza o frenesi,
a barbárie urbana,
a coisificação da vida,
a explosão que pode acontecer
nos mundos interiores,
dessa polvorosa e cardíaca
angústia existencial.
Mentes onde habitam sonhos,
pensares sofridos,
desejos incontidos;
pés que caminham desesperanças;
mãos que já não agarram possibilidades,
deixam escapar a Água da Vida,
que se esvai entre dedos dormentes
sem jeito mais para a arte do viver.
Da praça principal da cidade
sobem, em nuvem, pombas brancas
e o meu coração columbófilo
enxerga nela o aceno de paz da natureza
aos perdidos humanos da city.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
15/01/2017 (20h11min).

VERSOS URBANOS – II

Mergulhado na cidade
sinto-me sufocado pelos edifícios
que tomam o espaço do céu
arranhando meu sentimento,
minhas origens do campo.
Estou totalmente em descompasso
com a pressa da cidade.
Sou presa fácil para os gatunos,
alvo laranja para os pivetes,
ímã para batedores de carteiras
e toda esta horda malévola
que habita as urbis.
Meu estereótipo é de um inadequado.
Olho para o alto e os edifícios que
apontam os céus e escondem o azul
entontecem-me e quase caio
na vertigem da urbanidade envolvente.
Abobalhado, caminho olhando
pra tudo e pra nada:
é a descoberta da metrópole,
a cidade grande e seus mistérios
arquitetônicos.
A confluência das ruas,
as esquinas abarrotadas,
os camelôs circenses,
o samba do crioulo doido
das pessoas se evitando
e suplantando-se
no ir e vir da cidade viva.
Há uma poesia subjacente
nesta louca existência urbana.
Parece que as gentes não vivem,
mas deixam-se conduzir
pela engrenagem citadina;
esta máquina de engolir vidas
e fazer perder a lubrificação
da existência que um raio de sol,
um simples raio de sol do meio-dia,
pode oferecer ao coração.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
15/01/2017 (06h03min).

VERSOS URBANOS – I

Você está no trânsito
e um poema cheio de luz
bate no para-brisa como sol
preenchendo sua alma e seu ânimo.
Palavras soltas como carrinhos
de compras no supermercado
percorrem céleres
por entre as gôndolas
ordenando o caos.
Há uma simetria na desordem
por onde se origina a poesia.
Palavras brilham na luz
como, também, refletem sua
luz interior.
Você segura o volante com mais força
como se quisesse sentir-se
firmado em algo sólido
já que a poesia o convida
a invadir o Cosmos.
Nem entende como consegue dirigir
tomado de assalto pela utopia
de enxergar no caos a poesia.
É que o trânsito está parado
e o engarrafamento cria na avenida
duas filas paralelas
de carrinhos estáticos.
O sol bate pleno em
toda a extensão do para-brisa.
A moça do vestido vermelho
troca de roupa no carro da frente;
pelo espelho retrovisor
você vê ressonar o motorista de trás;
três infantes brincam estridentes
no banco traseiro do carro ao lado;
e você procura na pasta
seu caderno de anotações.
Você gostaria de escrever
o poema do momento,
um poema urbano,
em que as palavras não sofressem
o engarrafamento do trânsito.
Você olha para o lado da calçada
e os pedestres percorrem ligeiros
os espaços apertados da urbis.
É quando você descobre
que não se podem aprisionar palavras
e que seu poema vai gritar alto
este seu sentimento
e ecoar livre e altissonante
a poesia da vida
em todo coração amante,
mesmo que você esteja preso
por detrás de um simples volante.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
15/01/2017 (05h43min).


sábado, janeiro 21, 2017

VERSOS SERRANOS – XI

É madrugada e o galo canta
alheio aos que dormem.
Hoje canta um galo solitário
que solta os pulmões na serra
mas não tem eco o seu cantar.

As sombras da noite se vão
e os primeiros clarões da manhã
insistem em nascer tímidos,
com vontade de expulsar a noite
de seu trono de glória estelar.

O galo anuncia um novo dia:
esperança dos que dormem.
Quando se deita não há certezas:
o coração se cala diante do sono,
o cansaço da véspera faz sonhar.

A manhã nasce  em esplendor,
alcança a plenitude da luz.
Já não há mais galo cantando,
o homem segue sua trajetória:
sentir-se útil, conviver, trabalhar.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
14/01/2017 (05h22min).

VERSOS SERRANOS – X

Você está sob a sombra
de árvore de copa frondosa
estirado na grama e a poesia
se eleva às alturas das montanhas,
sua mão encobre a luz natural
da manhã sobre o grande livro
que repousa sobre suas pernas cansadas,
e seus olhos fecham e
a cabeça pende
em movimentos compassados,
balanceados,
até que o sono o domina
e adormece.
O que sonha?
Sonha que a vida é um grande livro,
mas há uma Grande Mão
vedando a escrita.
A mão é pesada,
mas, mesmo assim você tenta movê-la.
Ela, porém, é inamovível.
Você briga com a Grande Mão,
porque insiste em conhecer seu futuro,
não consegue conviver com as dúvidas
acerca de como será o seu amanhã.
As interrogações chicoteiam sua mente
e você quer respostas rápidas.
Mas, a mão é grande, intransponível,
ao mesmo tempo que serena e acolhedora.
Quando você se cansa da luta inglória
de tentar remover a Grande Mão
você se entrega e, exausto,
se deixa cair: estafado,
desgastado, sem forças para prosseguir,
como se morto estivesse
e, então, se prostra e adormece.
Quando recobra os sentidos
se sente acolhido, protegido.
Uma sensação boa, tranquilizadora,
perpassa todo o seu ser.
Você sente que o sono foi reparador,
pois o seu estado de ânimo é outro,
sua disposição se renovara,
há uma luz que ilumina e aquece sua vida.
E aí você descobre a razão de tudo isso.
Não apenas suas mãos deixaram-se
repousar na Grande Mão.
Todo o seu corpo está ali:
instalado,
aconchegado,
acondicionado
em forma de conchinha,
com perfeição, na Grande Mão.
E aí, em meio àquela sensação de alívio,
de paz, de vigor,
você descobre que
a Grande Mão é a Mão de Deus
que acalmou seu coração inquieto,
seu corpo acelerado.
Na Grande Mão de Deus que move o mundo
tem, também, um lugarzinho que é todo seu:
tem uma concha para abrigá-lo
do cansaço e propor calmaria;
tem um dedo sinalizador
para indicar o melhor caminho;
tem uma palma aberta
para receber o cravo de sua dor;
tem um braço estendido
para recebê-lo no abraço da fé na cruz.
E essa Grande Mão aconchegante lhe diz,
com suavidade, ternura e segurança,
diante de seus medos e temores interiores:
– Confia em Mim!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
14/01/2017 (05h10min).

VERSOS SERRANOS – IX

Há palavras que precisam
ser expostas como obras de arte

palavras que precisam de
moldura e proteção

palavras que precisam ser
guardadas como tesouros da humanidade

que precisam ser expostas
num museu da natureza
onde se cultiva espécimes raros

palavras cujo sopro de vida
venha da existência
e do ar rarefeito das montanhas

que se apresentam
com o sorriso incontido
que só enxerga quem as encontrou

há palavras que o Léxico não retém
e, defini-las, é quase impossível,
pois habitam o Reino do Indizível

há palavras que bom mesmo é vivê-las
e quando assim se dá
o mundo já não é mais o mesmo

uma destas palavras é AMOR.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
12/01/2017 (05h12min).