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domingo, fevereiro 25, 2018

FLUTUAÇÕES ANTIGAS

Menino boleiro que já se foi
e a bola rolando no terreiro
a dança dos corpos no jogo
um dia que se vai na serra....

Ficou a sombra da noite próxima,
o banho, o pito, o grito da mãe na janela.
O menino com a bola debaixo do braço
e o short rasgado e sujo em pés descalços.
Geme uma saudade de casa pobre de morro.
Geme uma desconfiança de que tais tempos não voltam mais...

Bola rolando no terreirão.
Dia seguinte à dança dos corpos
e o desenho do jogo no campo de terra batida;
cadernos largados em casa no chão de sua vida.
Menino boleiro que já não é mais;
novo dia nos sonhos do menino das montanhas.

O galo canta no morro na casa do Chico
a manhã se anuncia na voz do tenor de galinheiro.
O menino com a bola gasta debaixo do braço
desce o morro apressado e a vida
quer ganhar o futuro na dança do jogo
deixa pra trás o terreirão e sua gente
anda apressado em busca do sonho...

Hoje ele sabe o preço de corações tristes ao abandono
por um sonho que ainda não veio e nem sabe se virá...

Josué Ebenézer – Rio das Ostras,
10/02/2018 (07h28min).

sábado, janeiro 21, 2017

VERSOS SERRANOS – XI

É madrugada e o galo canta
alheio aos que dormem.
Hoje canta um galo solitário
que solta os pulmões na serra
mas não tem eco o seu cantar.

As sombras da noite se vão
e os primeiros clarões da manhã
insistem em nascer tímidos,
com vontade de expulsar a noite
de seu trono de glória estelar.

O galo anuncia um novo dia:
esperança dos que dormem.
Quando se deita não há certezas:
o coração se cala diante do sono,
o cansaço da véspera faz sonhar.

A manhã nasce  em esplendor,
alcança a plenitude da luz.
Já não há mais galo cantando,
o homem segue sua trajetória:
sentir-se útil, conviver, trabalhar.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
14/01/2017 (05h22min).

VERSOS SERRANOS – X

Você está sob a sombra
de árvore de copa frondosa
estirado na grama e a poesia
se eleva às alturas das montanhas,
sua mão encobre a luz natural
da manhã sobre o grande livro
que repousa sobre suas pernas cansadas,
e seus olhos fecham e
a cabeça pende
em movimentos compassados,
balanceados,
até que o sono o domina
e adormece.
O que sonha?
Sonha que a vida é um grande livro,
mas há uma Grande Mão
vedando a escrita.
A mão é pesada,
mas, mesmo assim você tenta movê-la.
Ela, porém, é inamovível.
Você briga com a Grande Mão,
porque insiste em conhecer seu futuro,
não consegue conviver com as dúvidas
acerca de como será o seu amanhã.
As interrogações chicoteiam sua mente
e você quer respostas rápidas.
Mas, a mão é grande, intransponível,
ao mesmo tempo que serena e acolhedora.
Quando você se cansa da luta inglória
de tentar remover a Grande Mão
você se entrega e, exausto,
se deixa cair: estafado,
desgastado, sem forças para prosseguir,
como se morto estivesse
e, então, se prostra e adormece.
Quando recobra os sentidos
se sente acolhido, protegido.
Uma sensação boa, tranquilizadora,
perpassa todo o seu ser.
Você sente que o sono foi reparador,
pois o seu estado de ânimo é outro,
sua disposição se renovara,
há uma luz que ilumina e aquece sua vida.
E aí você descobre a razão de tudo isso.
Não apenas suas mãos deixaram-se
repousar na Grande Mão.
Todo o seu corpo está ali:
instalado,
aconchegado,
acondicionado
em forma de conchinha,
com perfeição, na Grande Mão.
E aí, em meio àquela sensação de alívio,
de paz, de vigor,
você descobre que
a Grande Mão é a Mão de Deus
que acalmou seu coração inquieto,
seu corpo acelerado.
Na Grande Mão de Deus que move o mundo
tem, também, um lugarzinho que é todo seu:
tem uma concha para abrigá-lo
do cansaço e propor calmaria;
tem um dedo sinalizador
para indicar o melhor caminho;
tem uma palma aberta
para receber o cravo de sua dor;
tem um braço estendido
para recebê-lo no abraço da fé na cruz.
E essa Grande Mão aconchegante lhe diz,
com suavidade, ternura e segurança,
diante de seus medos e temores interiores:
– Confia em Mim!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
14/01/2017 (05h10min).

VERSOS SERRANOS – IX

Há palavras que precisam
ser expostas como obras de arte

palavras que precisam de
moldura e proteção

palavras que precisam ser
guardadas como tesouros da humanidade

que precisam ser expostas
num museu da natureza
onde se cultiva espécimes raros

palavras cujo sopro de vida
venha da existência
e do ar rarefeito das montanhas

que se apresentam
com o sorriso incontido
que só enxerga quem as encontrou

há palavras que o Léxico não retém
e, defini-las, é quase impossível,
pois habitam o Reino do Indizível

há palavras que bom mesmo é vivê-las
e quando assim se dá
o mundo já não é mais o mesmo

uma destas palavras é AMOR.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
12/01/2017 (05h12min).


terça-feira, janeiro 17, 2017

VERSOS SERRANOS – VIII

Anotei num caderno
um pensamento notívago.
Divaguei para encontrar um autor.
Será meu?
Ou ele ou eu;
dizia o poema
que dele se originou.
A passarada desperta
aos primeiros clarões do dia.
O galo canta no terreiro ao lado
e, em resposta, o trotar
do cavalo na rua de paralelepípedos
anuncia que o João
está indo buscar pão.
Galos respondem ao galo
que originou o primeiro canto matinal.
Pensei no pensamento anotado no papel,
pensei de onde me viera tal ideia,
pensei em como a poesia imita a vida
e o imaginário está tão próximo do real.
Encontrei alguns elos.
O principal deles,
o elo dourado do sol
que desponta feliz na manhã.
É feliz o homem que sabe sonhar.
É feliz quem faz da poesia
sua catarse mental,
sua interpretação da natureza.
Se não há nada novo debaixo do sol,
como disse o sábio,
vou subir nas palavras e fazer poesia,
me elevar até as nuvens
e viajar no tapete mágico das palavras;
vou transpor os umbrais da atmosfera
e entrar na esfera dos sonhos
para viver o novo poético
à cada manhã de esperança
por detrás das montanhas verdes.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
12/01/2017 (05h00min).

terça-feira, março 18, 2014

BOM DIA...

“Bom dia”, diz a claridade
no chegar da manhã
expulsando o breu
e trazendo novidade.

“Bom dia”, diz o galo
no quintal do vizinho
anunciando a chegada
do dia, de mansinho...

“Bom dia”, dizem os pássaros
no rebuliço, entre árvores
sob copas frondosas
e o desejo de alimentarem-se.

“Bom dia”, diz o sol
e seu sorriso imenso
que toma conta do planeta
das nuvens fazendo incenso.

A Natureza, agradecida
retribui com alegria
a noite adormecida
e o raiar do novo dia.

Os próprios animais
alegres, saltitantes,
da manhã, querem mais
anunciam retumbantes.

Mas, o homem, este ser
que é coroa da Criação
não tem em si um “bom dia”
pra agradecer do coração.


Josué Ebenézer – Cachoeiras de Macacu,

13 de Março de 2014 (14h59min).