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domingo, fevereiro 05, 2017

VERSOS URBANOS – IV

Sempre achei boa a ideia
de “ar-livre” na praça
por ajuntar o povo da igreja
junto ao coreto onde tantas
vezes vi Deus passeando.
Era um tempo sem a pressão
desses dias malfadados
em que o politicamente correto
impõe um jeito de ser.
Era um tempo mais democrático
em que se podia ocupar
o espaço público
para se expor ideias religiosas.
E havia velhos e jovens
e adolescentes e crianças barulhentas
e havia caixa de som e música
e a prédica ecoava
pelo som do alto-falante
“à você, amigo, que está
ao alcance de nossa voz”.
A ideia da igreja viva,
fora das quatro paredes do templo,
solta na pracinha ao “ar-livre”,
dando a cara a tapa,
para um mundo sem Deus
é mais que simbólica:
é emblemática
de um tempo que não volta mais...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
16/01/2017 (06h07min).

VERSOS URBANOS – III

A multidão esconde o indivíduo
e não duvido que a solidão
se esconde na multidão.
Pessoas caminham pelas calçadas
e o formigueiro humano
sinaliza o frenesi,
a barbárie urbana,
a coisificação da vida,
a explosão que pode acontecer
nos mundos interiores,
dessa polvorosa e cardíaca
angústia existencial.
Mentes onde habitam sonhos,
pensares sofridos,
desejos incontidos;
pés que caminham desesperanças;
mãos que já não agarram possibilidades,
deixam escapar a Água da Vida,
que se esvai entre dedos dormentes
sem jeito mais para a arte do viver.
Da praça principal da cidade
sobem, em nuvem, pombas brancas
e o meu coração columbófilo
enxerga nela o aceno de paz da natureza
aos perdidos humanos da city.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
15/01/2017 (20h11min).

VERSOS URBANOS – II

Mergulhado na cidade
sinto-me sufocado pelos edifícios
que tomam o espaço do céu
arranhando meu sentimento,
minhas origens do campo.
Estou totalmente em descompasso
com a pressa da cidade.
Sou presa fácil para os gatunos,
alvo laranja para os pivetes,
ímã para batedores de carteiras
e toda esta horda malévola
que habita as urbis.
Meu estereótipo é de um inadequado.
Olho para o alto e os edifícios que
apontam os céus e escondem o azul
entontecem-me e quase caio
na vertigem da urbanidade envolvente.
Abobalhado, caminho olhando
pra tudo e pra nada:
é a descoberta da metrópole,
a cidade grande e seus mistérios
arquitetônicos.
A confluência das ruas,
as esquinas abarrotadas,
os camelôs circenses,
o samba do crioulo doido
das pessoas se evitando
e suplantando-se
no ir e vir da cidade viva.
Há uma poesia subjacente
nesta louca existência urbana.
Parece que as gentes não vivem,
mas deixam-se conduzir
pela engrenagem citadina;
esta máquina de engolir vidas
e fazer perder a lubrificação
da existência que um raio de sol,
um simples raio de sol do meio-dia,
pode oferecer ao coração.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
15/01/2017 (06h03min).