sábado, fevereiro 21, 2015

MISTÉRIO

O espelho
essa lâmina de vidro
que me vê

tão logo
a manhã me acorda

tão antes
que o galo
cante a claridade

e as montanhas
saiam do casulo
da noite

esse espelho
não sabe
nada de mim.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

21 de Janeiro de 2015 (08h15min).

LEITURA DE MIM

O poema esse ente
que me escreve
bem antes de chegar
ao leitor

essa narrativa
que me descreve
com toques suaves
palavras chaves
de amor

esse sentido
subentendido
nas entrelinhas
da vida, sorrindo
algo atrevido
mal entendido
o eu de pronto
sumindo...

esse poema
tela suprema
de um grande pintor
que o tempo enfermo
agente soberano
descaracterizou

e agora é preciso
uma restauração
em cada palavra
redescobrir
qual é a canção

nas camadas de tinta
sobrepostas a mim
na tela da vida
é preciso ir escavando
remodelando
até o original
que o tempo levou

pra que possa de novo
poema perfeito
sem qualquer defeito
representar
o meu Criador

Poeta-Cantor
que em grande bonança
em tom de paisagem
me fez sua imagem
também semelhança.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
21 de Janeiro de 2015 (05h45min).


CHARLATANISMO

O milagreiro me fascinava
era época de desemprego
e década perdida.

Suas mãos eram ágeis
mas era a sua oratória
o toque mais envolvente.

O tempo se encarregou da voz
e a mente ficou rouca junto:
voz e mente desafinando.

Seu milagre derradeiro
não foi exorcismo nem cura
foi dar golpe, na praça, em viúva.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

21 de Janeiro de 2015 (05h20min).

TREVAS

Tem-se no teto um manto tenebroso
horroroso, o dia nem é feto
abjeto – assombra, o breu malcheiroso

emerge da escuridão um sopro quente
um hálito, um bocejar do firmamento
e, no momento, tormento, o corpo sente

emerge do sopro quente um grito
um apito desenroscado na noite
agito, açoite, atropelo, atrito

tem-se no sopro quente uma chance
apenas um relance, soporífero
dormir, esquecer, perdoar, alcance.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
20 de Janeiro de 2015 (18h32min).