quinta-feira, junho 19, 2014

MORANGOS SILVESTRES

Por muito tempo amei os morangos
silvestres e o azedinho da mordida.
Traziam recordações da infância e do
tempo da vida mansa e dos sonhos inocentes.
Acrescentava à memória:
os pés descalços e a ânsia do aprender.
E eu, por muito tempo amei os morangos
silvestres e o azedinho da mordida.
Mas a capina feita no terreno aqui de casa,
pôs abaixo uns tardios morangos silvestres
de minha pequena vida grande.
Meu amor por eles era como de
companheiro de início de jornada.
À beira do caminho eles acompanharam
meus primeiros passos e estavam sempre à mão
quando os olhos vasculhavam o chão.
Foram testemunhas de não sei quantas orações
e se deixaram regar por inquietas lágrimas juvenis.
Mas, junto com o matagal, estes morangos tardios se foram.
E aquele vermelho-róseo tão viçoso
escondido em tenras folhas verdes do viver,
– embaladas pelo vento da montanha,
e no verter das águas ao som do canto do riacho –
estão desaparecendo lentamente do imaginário também.
Já começam a ficar distantes (como a existência)
embora o azedinho continue gravado
na saliva ocasional.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

09 de Maio de 2014 (14h25min).

TODAS AS PALAVRAS...

Todas as palavras cabem numa só.
E o que estou fazendo, a compulsar dicionários?
Todos os sonhos cabem numa vida.
E o que será da existência depois da partida?
Quem vai ler estes meus poemas temerários?
E de quem serão os sonhos idealizados?

Todos os sentimentos emanam de um apenas.
E o que estou fazendo, ao ter gavetas no coração?
Todas as matérias cabem num átomo.
Ou será que o Planeta Terra não é um ponto lá do espaço?
Quem vai amar depois do derradeiro dia?
E de quem serão os sonhos inacabados?

Toda existência se resume num objetivo.
E o que estou fazendo ao tentar entender o impossível?
Toda criatura converge para o seu Criador.
E o que farei da vida se não for viver para o amor?
Quem vai soletrar amar, quem vai partir feliz no adeus?
Aquele em quem a palavra amar-amor é o próprio Deus!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

09 de Maio de 2014 (14h05min).

OS POEMAS E AS HORAS

Reflito com meus botões: a mente
que pensa poemas
está fértil. Os pés deixaram o
gramado verde, aposentaram as
chuteiras e estão andando sobre
nuvens nas manhãs simbólicas
do Outono. Não há preguiça mais
medíocre que a de pensar.
Assim como planejo o cuidado
do vir a ser, transito palavras
nas vias do coração.
E elas levam, laboriosas,
meu sentimento ao mundo.
A mente que pensa poemas
não mente: as horas passam,
vão-se os dias,
mas a escrita que se semeia d’alma
colhe-se calma
no porvir.
A mente-poema alerta:
– Não tema!
As horas passam e, um dia,
o relógio trava:
quebra-se em cacos,
no éter sem gravidade da vida.
Não há mais giros no ponteiro.
Mas, os poemas ficam:
escritos em papéis soltos;
inscritos alhures nos corações presos
por suas palavras místicas...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

08 de Maio de 2014 (18h).

quarta-feira, junho 18, 2014

LÍNGUA

Língua do meu chegar ao mundo,
pátria do meu viver profundo,
passarela de cada sonho meu:
és o idioma que veste meu falar...
Língua que me convence a cada dia
que é possível a paz entre os homens
e necessário entre as gentes, harmonia
pra alcançar uma paz não só de nomes.

Língua que me absorve, me personaliza
que me faz transitar por toda cidade.
Língua que a vida em mim suaviza
e em meio à turba me dá identidade.
Língua que é poema, língua que é canção,
que caminha comigo como ave sonora.
Língua que do sentimento é expressão
e do fundo d’alma, passagem implora.

És força, ímpeto e fé quando língua-açoite
e és desafiada ante o mal não se calar.
Do homem destruído, tu afastas a noite
quando teu discurso faz o dia clarear.
Mas és língua-bandeira, a tremular branca
já que a paz é tua missão espargindo luz
és bandeira de paz que a vida abranda
e um vívido diálogo que a fé conduz.

Amo-te língua, idioma do meu nascer
que deu nome ao que meus olhos viram,
e nomeou emoções que as dermes sentiram
desvelando sentimentos, no imo a florescer.
Amo-te língua-mãe, língua-ama, língua-aio
que me fez sílaba, palavra, verso e frase
e me fez mensagem e me deu sentido
e assim vou caminhando, a mudar de fase
tornando-me um poema de Deus renascido!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

08 de Maio de 2014 (07h07min).