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sábado, setembro 15, 2018

SINCERAMENTE...


O rádio desperta a casa cedo:
viva o domingo que está a chegar!

É o acordar para as celebrações,
do Dia do Senhor no seio da casa.

A petizada em alvoroço, a panela chiando.
O almoço quase pronto, antecipação.

Eu sentava na cama, pegava a revista,
fazia o estudo da EBD atrasado...

Ainda sinto o cheiro do frango domingueiro,
que mãe preparava antes de ir pra igreja.

Tinha uma mesa de fórmica marrom na cozinha,
onde o café fresquinho nos esperava.

Já com roupa de domingo, asseado,
precipitava-me, escada abaixo ao encontro.

Dos amigos de igreja, colegas de classe,
tinha o papo antes, sobre o jogo do sábado.

O estudo da revista calava a dispersão.
A ideias espocavam até nos mais tímidos.

O cheiro da poeira das frinchas do assoalho
de taco, onde pulgas escolares moravam.

E o professor se esforçando na aula,
para a Palestina não ser tão distante.

Também tinha o teste que saiu do mimeógrafo
e cheirava a álcool arroxeado na carteira.

Nossos conhecimentos bíblicos postos à prova,
enquanto o trimestre se findava e a revista.

–  Josué Ebenézer, você já tem Jesus no coração?
A voz de meu pai-pastor ecoava firme!

E tinha o culto da manhã e as sessões,
almoço em família e ar-livre no Morro da Pedra.

E tinham as Uniões e a gente fazendo ponto corado,
falando umas coisas da revista, outras do coração.

E o Culto da Noite e os jovens cantando
simples, no “Libertos por Cristo”, mas era puro!

E tinha as mensagens e a pregação evangelística,
e os apelos ao coração, e as decisões.

E tinha o pós-culto, sem cantinas, naquela época;
mas, com um bom bate-papo que avançava a noite...

Tempo verdadeiro e sincero da vida infante,
quando corações sonhadores se encontravam.

O dia fez-se noite na lua que sorriu no breu
e vai-se embora como toalha de mesa dobrada.

Farelos serão jogados no lixo ou para as aves
e voltaremos para a mesa da família ou do Senhor.

A eternidade nos espera de braços abertos
enquanto aqui na terra o Museu Nacional pega fogo!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
04/09/2018 (03h50min).

sexta-feira, agosto 18, 2017

GENTES

Ele disse
gente
e era como se fosse
uma interjeição qualquer
sem sentido prévio
apenas um conclamar
de ouvidos
um alerta simplório
para um falar coletivo

mal sabia
que eram muitas
as gentes
por trás daquele aviso
e vieram sonhos irrealizados
corações partidos
almas sequiosas
histórias interrompidas
ressentimentos guardados
nas gavetas do coração
quartos, livros, canções
passagens de navio e
bilhetes de Maracanã
e milhares de sofás
que acolheram beijos e abraços
e recolheram lágrimas
e esconderam separações

é possível olhar para as gentes
e não ver
o que a face encobre...

é nas gentes
que está o sonho e a esperança
que está a crença de criança
é no rosto
que se vê a aflição
que se descortina o coração
mas, preste atenção
há gente chorando
há rostos inseguros
há sofrimento
nas faces sulcadas pelo tempo
há devaneios
nas falas loucas
de bocas tortas
há punhais nas mãos
desconsolo e frustração
há dedos no gatilho
e há gente pronta
para disparar o fim
há gente indo
há gente vindo
há xingamentos e gritarias
há gente que se esconde
atrás das gentes
há quem dissemine a paz
há cultores do ódio
gente que ama
e gente cujos olhos
se inflamam de raiva
e espumam desesperos
há gente que se cria
no meio da multidão
há baderneiros
com paus e pedras
nas mãos
e pacificadores
que carregam bíblias
nos sovacos
bem perto do coração

os mistérios das gentes
promove o medo do encontro
mas, eu digo
(nesse meu coração-discípulo);
eu só penso nas novas gentes
que hão de nascer dessas gentes.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
04/08/2017 (04h27min).

segunda-feira, agosto 14, 2017

CARREGO COMIGO NESTE ANDAR…

Uma Bíblia
gasta do manuseio
uns caramelos
coloridos
folhetos carimbados
nomes vários
de alguma gente
em papel registrados

minha esperança
de discípulo andarilho
uma crença
forjada na experiência
o sabor doce
da alegria infante
um espaço de acolhimento
amor de Deus
cheiro de gente
a busca do avivamento

minha pregação
de discípulo andarilho

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
04/08/2017 (04h03min).

sexta-feira, agosto 11, 2017

O DISCIPULADO NÃO REALIZADO

No cerne da minha memória viva
veio à tona o discipulado não realizado
a vida que não veio me incomoda
como ondas que batem na praia e voltam ao mar

os abraços que não dei, sorrisos recolhidos
orações não apresentadas aos céus
bíblias fechadas, estudos em branco
o que fazer da comunhão
que ficou guardada na dispensa do coração?

o discipulado não realizado engole os feitos
e a alegria não sentida, o amor retido
celebração da vitória adiada sem data
vêm à memória toldando o sonho

há palavras que se recolhem como gato arisco
sutil sumiço no entardecer da vida
em que o pensar toma-se de nostalgia
e se tenta resgatar a fé perdida no caminho

como se faz importante neste instante
aquilo que não se concretizou
o amigo que foi cedo demais
os RDs que não aconteceram jamais

a gratidão assume o controle da emoção
em coração que percebe o quanto Deus fez
e quantas vidas foram resgatadas
porque vida na vida foi seu discipular

mas se acende forte na memória
a complexa interrogação do não feito
a vida que se foi em qualquer atalho
de um belo discipulado não realizado.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
28/07/2017 (05h50min).

quinta-feira, junho 29, 2017

ATEAR SONHOS

Podemos atear sonhos
às mentes das ovelhas
fazê-las esquecer o pasto
grama por grama
e viajar montanhas
altiplanos espirituais
onde as nuvens próximas
são desafios de Deus
mas não podemos esquecer
que o peso da experiência
não pode ser sonhado
tem que ser experimentado
corpo a corpo
palmo a palmo
deste novo céu
que Deus originou
em nosso imo

Josué Ebenézer – São Fidélis,
05/06/2017 (09h55min).

domingo, dezembro 28, 2014

A UM TEÓLOGO, COM AMOR

A J. J. Soares Júnior,
meu mano querido

Tu és o caçula,
a raspa do tacho
que adoçou a maturidade de papai
depois que a vida, e seus sobressaltos,
levaram a primogênita querida, Júlia,
que emprestara da mãe dele o nome
para lhe render homenagem.

Não é à toa que trazes o nome do velho
no registro.
Eras-lhe o menino temporão,
o pequeno júnior
que perpetuaria na família os joões-josés,
terceiro, dessa dinastia
de gente simples do povo batista.

Mas papai não viveu para saborear
este momento.
Ele já tinha partido há três anos,
quando tu recebestes esta vocação tardia,
porém auspiciosa, para o ministério.
E tu relutastes, mas, a teu tempo
te rendestes àquele que era maior do que
teus sonhos: o chamado.

E tu encarastes toda a luta necessária,
enfrentastes as adversidades
sofrestes os reveses
mas não desististes do ideal
que te ombreava a visão.

Se cá estivesse entre nós, papai
sorriria contido, seus olhos brilhariam
quase umedecidos de lágrimas de alegria
e faria uma oração em tom grave
para louvar ao Deus dos céus por ti, mano.

Conheço, agora, um outro Juninho.
Um jovem pai de família,
um servo do Senhor,
um marido cônscio de seus deveres
que no seminário fez-se teólogo
e na vida fez-se servo.

Conversar contigo agora é
destravar comportas de bênçãos
e ideais que pulsam firmes dentro de ti.
Tua cosmovisão é outra,
teu compromisso com o Evangelho amadureceu,
tua vontade de trabalhar para o Reino é virginal.
Tu tens um compromisso com Deus, o Pai
que funciona como cartão de visitas para a esperança.
Outros leram da Bíblia um versículo apenas,
tu lestes os testamentos
e lestes a Palavra Viva, o Verbo que se fez carne,
e conhecestes as bênçãos do pertencimento
à Nova Aliança.
Que Deus te proteja!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

25 de Novembro de 2014 (23h40min).