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domingo, dezembro 28, 2014

CÉU AZUL DA FÉ

Inspirado, em seu sermão,
por palavras com asas o pastor voa
no céu azul da fé.
Ele navega por ares
nunca dantes navegados.
Clamo a Deus que não lhe falte combustível:
a viagem da vida é longa
e o povo precisa navegar. Amém!

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

19 de Dezembro de 2014 (05h15min).

MOSTRA-ME, SENHOR!

No culto, o pregador fala mansamente
explica a Palavra com amor
enquanto os seus olhos acompanham o auditório
(aqueles corações são a boa terra pra semente)
e seus gestos, medidos e comedidos, acentuam a Palavra.
Lá fora, a inquietação predomina,
as praças estão cheias e venta um burburinho
o trânsito está calmo, é domingo, mas não há paz
e eu, no templo, ouço a Palavra
querendo que as escamas caiam dos olhos
rindo e chorando os meus momentos
aguardando o que pode acontecer.

Mostra-me, Senhor!

O guarda de trânsito abandonou o apito e
vê as bandas das meninas passarem;
a velhinha acerca-se de cuidados para atravessar a rua;
as crianças, afoitas, circulam tendo uma delas a bola na mão
querendo chegar ligeiras ao campinho;
maritacas voam algazarras de sonido incerto;
capivaras fuçam matos às margens do rio que reverdece;
a vida prossegue em seu labor
e eu, Senhor,
aguardo uma luz...

Assentado no último banco do templo
estou dentro e fora ao mesmo tempo
acompanhando a movimentação humana
e o mover do Espírito.
Arrasado, percorre a calçada o cachorro
escorraçado pelo dono da carrocinha
de cachorro-quente.
Transeuntes anônimos olham para o interior do salão
com olhos que bisbilhotam sabe-se lá o quê
na tentativa de algo encontrar.
A música estruge e a congregação põe-se de pé;
perfilo-me entre os fiéis com a alma dividida.

Mostra-me, Senhor!

As praças sabem falar;
os ambulantes pegam a esperança no troco esquecido;
no semáforo, as luzes acendem e apagam generosidades.
Quase sem vida, o morador de rua atravessa a letargia.
Um coração aflito sabe como outro coração aflito afligir.

Mostra-me, Senhor, o que não posso mostrar:
devo eu assentar-me em banco mais pra frente doutra feita?
devo dar as costas para o burburinho da rua
e só ouvir as canções e as orações cá de dentro?
como conviver com os pensamentos
estando num lugar que convida à paz?
Talvez você pense agora: que precisa ver este cidadão?
Tu dizes pra mim, Senhor, no silêncio da oração
e na suavidade majestosa da pujante canção:
– Há um rio que leva às moradas do Altíssimo!
E eu grito algo desorientado:
– Então eu quero, Senhor! Eu quero Senhor!
E me mostras o rio caudaloso da vida
onde me abebero de fé, esperança e amor.
Saio do culto sem medos precoces
ou qualquer delirium persecutorum
e sinto o vento bater
na face molhada
respingada de Deus.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

09 de Dezembro de 2014 (18h10min).

domingo, julho 06, 2014

O PREGADOR DA PRAÇA

Arquétipo do Messias
estereótipo da ilusão
o pregador é um ente
sobrevivente da esperança.

Foi uma visão de entardecer
aquele pregador na praça
corpo magro em paletó velho
brandindo sua fé para a raça.

Diante de povo que não para
de gente que anda sem ver:
uma Bíblia surrada na mão
como muleta para o existir.

Ele apontava o dedo
– acusatório dedo em riste –
para os ouvintes imaginários
de uma oca prédica louca.

Ele esbravejava feroz
aos gritos de palavras soltas
uma escatológica angústia
da solidão do ego exposto.

O burburinho era grande
na praça da cidade antiga
de apito, sirene, ambulante
enquanto o pregador grita.

Enquanto o tempo passando,
os carros fluindo velozes,
o paletó do pregador soltando
e o vento abafando vozes.

O pregador não tem ouvinte,
o pastor está sem rebanho
e a praça fervilha emoções
de corações distanciados.

A tempestade se avizinha,
o pregador se descabela,
mas as rajadas se incumbem
de arremessar folhas ao vento.

No hiato entre pregador e praça
há um intervalo de insanidade
a alienação é o selo do caos
que domina o estertor da cidade.

O relativismo duma vida sem Deus
faz produzir quem Deus queira ser
implanta caos nos relacionamentos,
aniquila a convivência do viver.


Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

05 de Junho de 2014 (07h54min).

quarta-feira, junho 18, 2014

UM SEMINÁRIO...

Um seminário de teólogos vivos na cabeça
e eu não consigo pregar
às minhas ovelhas.
Qual o valor do estudo obcecado,
gestando na mente teologia
de uma espiritualidade desafinada?

O que plantei, plantei,
“sementes de Deus”,
mas o que colhi?
Tempestade? Bonança?
Ou este plantio deu
colheita eterna ou foi estéril.
Só sei que algo não deu certo
e já não tenho o que falar
às minhas jovens ovelhas.

Qual seria a culpa minha
se os ouvintes não aceitaram?
De que serei incriminado
se as palavras foram ao vento?
Como explicar quem é Deus
(para minhas ovelhas)
se elas vão amar mais
ao mundo que a Ele?
Pois se esquivaram de sonhar,
de abrir mão do Ego,
e irão em busca de outro pasto
e não saberei o que dizer
às minhas ovelhas.
Enquanto isso a porteira do redil
está escancarada.

Quem sabe lhes fale
de colmeia, abelha e mel
e lhes diga do fundo d’alma
para não optarem pela terra em lugar do céu;
talvez até lhes fale
do Pão da Vida e da Água Viva
e volte a lhes falar do Cálice Sagrado
e da Cruz do Calvário,
mas, não sei se enxergarão
a Estrela de Belém...

O que é que pregarei,
às minhas já não tão jovens ovelhas,
neste sermão derradeiro?


Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
06 de Maio de 2014 (13h15min).