Mostrando postagens com marcador celular. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador celular. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, outubro 31, 2014

AMIZADE DE ENGARRAFAMENTO

Sempre lembro de você
(quando estou num engarrafamento
e não tenho nada para fazer).

Aí, pego o celular e passeio pelos nomes
até chegar ao seu – e, de outros –
pensando comigo mesmo:
– Há quanto tempo não falo com você...

Aí, aciono a tecla e, você, feliz:
– Que bom ouvir sua voz!

Mal sabe, que só lembrei de você
porque o trânsito me impediu
de prosseguir na vida;
amizade de engarrafamento...

Até a próxima viagem ao Rio de Janeiro...


Josué Ebenézer – São Gonçalo,

25 de Agosto de 2014 (18h47min).

quarta-feira, agosto 06, 2014

HOMO ENDOFONE

Nestes tempos tecnológicos
para mim um tanto ilógicos
o homem já não existe só
e não sei onde vai parar...
É o homo endofone
que fez implante em seu corpo
de um aparelho celular.

Por onde quer que ele ande
onde haja um da espécie
não é difícil de ver.
Lá está o homo endofone
com o adereço nas mãos
me inquieta entender.

Me inquieta observar
o homo endofone absorto
os dedos mexendo nervosos
no aparelho celular,
extensão do próprio corpo.
O mundo parece morto
enquanto está a digitar.

Homo endofone:
homem ensimesmado,
homem isolado,
trancado em si mesmo.
Homem absorto,
homem quase morto,
um pária social
que perdeu o tato pra vida.

O homo endofone
evita o contato:
pele com pele,
face com face,
olhar com olhar.

Suas relações são intermediadas
pelas tecnologias
– são relações frias –
de recato e solidão.

O homo endofone
perdeu a sensibilidade
da lágrima nos olhos
da face enrubescida
da voz embargada
e da vergonha na cara.
Sua sensibilidade agora é eletrônica
mediada por toques de celular
que indicam o que se vai ler
com quem se quer falar...

Tempo bom era aquele
que seu Zé estava logo ali
que a Maria era cheia de graça
e o João nos fazia rir.
A gente tinha a presença real
de gente de carne osso
cuja sensibilidade era determinada
pelas vertentes do coração.

Hoje, o homo endofone
– não importa se pequenino
ou deste tamanhão –
se esconde atrás de um telefone
e pra isto eu tenho um nome
se chama tecno-abstração.

Enquanto seres envelhecem,
a vida se esvai
e celulares ficam obsoletos,
Diante de olhos que secam,
sorrisos que murcham
e tempo que não se recupera
o homo endofone se desintegra.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
Cachoeiras de Macacu, Itaboraí (em trânsito),

27 de Junho de 2014 (10h11min) – 28 de Junho de 2014 (07h34min).