segunda-feira, julho 27, 2015

POESIA NATURAL



Naturalmente
espera a Natureza
as folhagens de cada árvore.
Naturalmente
esperam as árvores
os frutos de sua espécie.
Naturalmente
esperam os passarinhos
os filhotes, dos ovos, nos ninhos.
Naturalmente
esperam os casais
os filhos do seu amor.
Naturalmente
espero eu, poeta,
a poesia que brota da vida.

Se ela naturalmente não vem
que não venha em nenhum dia,
pois a escrita que vem forçada
não posso chamar de poesia...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
18 de Junho de 2015 (06h02min).

DIALOGICIDADE



Diálogo:
da logo,
do logos.
Diz logo.
Diálogo:
Dia longo,
dia largo,
dia large.
Diálogo:
de longe,
do lounge,
do lago,
do logro.
Diálogo:
dai logo,
doe logo.
Dialogo.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
17 de Junho de 2015 (04h32min).


SÁBIO FOI O MACHADO



Sábio foi o Machado
– o nosso Machado de Assis –
que saiu cortando
(e isso fez como quis)
e do limão da burocracia
fez a limonada da literatura.

Mas, será que existiram outros?
Difícil!

Pelo menos nos dias atuais
em que os burocratas são azedos;
os tecnocratas, deprimidos;
envelhecidos na tez.
Difícil de encontrar:
um que seja gentil,
que sorria no exercício da profissão,
e não se esconda atrás do aviso da antessala:
“desacatar funcionário público é crime!”

Há muitos que esconderam o sorriso,
expulsaram o diálogo
(em meio ao dia longo)
para poupar relações sociais.
Até as mulheres abandonaram
sua vívida expressão
ofuscando o brilho do olhar.

Fico a me perguntar: Onde a razão desta aridez?
Talvez, talvez o tom monocórdico,
da rotina do trabalho,
da convivência cotidiana com a gente simples do povo,
com as letras mortas das atas e documentos antigos,
com os longos textos técnicos a que se deva devotar
redobrada atenção para se detectar erros e incongruências...

Assim são, por exemplo, os funcionários de cartório:
quer gente mais pessimista que estes?
Gente amarrada, trancada, infeliz;
presa às convenções, ao cerimonialismo,
ao ritual da impessoalidade;
à aridez da prática de trabalho;
ao mais do mesmo à cada dia;
a vida sem utopia
de rotina massacrante
sem possibilidade de subversão...

Talvez, talvez a estabilidade do trabalho,
a certeza do faturamento,
a sobrevivência em meio à oscilação econômica;
as amarras da mesmíssima burocracia,
os laços da própria legislação,
os selos oficiais, os decretos,
os códigos e a ética insana,
a rigidez dos discursos, das falas;
o automatismo das palavras aprendidas,
da repetição das frases a cada dia,
do eco de papagaio que papa a paciência,
desse tom solene e monótono;
da postura aprendida
num adestramento quase desumano
para repetir protocolos.

Os gestos comedidos, os olhares frios,
a irritação velada ou descarada
denunciada por meio de variações de comportamento
ou alterações de voz;
ante a incompreensão do consulente,
do desavisado cidadão,
que tenta cumprir as burocracias de Estado,
mas não está afeito a linguagem peculiar ,
aos ditames cartoriais,
à rotina de selos carimbos e assinaturas,
autenticações e pagamentos
que embotam os pensamentos
em meio às cópias e formatações;
como se a vida não mais tivesse brilho
e nem mais existissem surpresas
tendo que, de repente, entrar no trilho
e o rio da vida fosse contido por represas
que interrompessem seu curso poético;
como se a vida não mais tivesse cor
e as ações tivessem que ser mecânicas
ausentes desse calor
que humaniza os relacionamentos,
e os homens virassem máquinas
de produzir papéis vários
e sumisse o imaginário fértil
escondido no baque seco
dos carimbos cinzentos;
como se a vida abdicasse das formas
e se reduzisse a poucas expressões
e não fosse mais possível a diversidade
porque a burocracia
instaurou a República da Uniformidade...

Sábio foi o Machado
–       – o nosso Machado brasileiro –
 pai de nossa literatura,
que por trás de seus óculos professorais
e de sua barba senhoril
revelou um espírito inquieto,
um humano espírito brasileiro
que captou a essência de nossa gente,
por trás dos balcões da burocracia,
que deu cor ao acinzentado sistema,
captando o cotidiano das gentes
dando-nos a beber
o suprassumo das cores literárias...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
16 de Junho de 2015 (04h54min).

PAI NOSSO POÉTICO

Pai nosso, que estás nos céus do Idioma,
santificado seja o teu nome
(e que não haja dúvidas de significado);
venha a nós o teu reino encantado do Saber,
seja feita a tua vontade, assim na prosa como na poesia.
A poesia nossa de cada dia nos dá hoje;
e perdoa-nos os nossos erros gramaticais,
ortográficos e, até mesmo, os de digitação
(que consideramos menores),
assim como nós perdoamos aos nossos devedores
(os que deixaram o computador ser mais inteligente que eles)
e como isso nos tem ofendido sobremaneira.
E não nos deixes cair na tentação do plágio,
mas livrai-nos de todo verso mau.
Porque teu é o Reino do Saber,
e o poder da Palavra,
e a glória nada efêmera da poesia que permanece para sempre,
como para sempre és no Universo da Linguagem. Amém.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
12 de Junho de 2015 (05h32min).


PS. Aos desavisados de plantão, esta paráfrase poética da Oração Modelo de Jesus Cristo é um tributo ao Autor da Vida; o maior comunicador de todos os tempos; o Verbo que se fez carne e habitou entre nós; àquele que prefere a simplicidade das palavras; que se humaniza para se relacionar; que dialoga com os humanos na oração; que prefere a maior e mais perfeita forma de comunicar que é o Amor. Soli Deo gloria!