segunda-feira, outubro 27, 2014

PAPEL IMAGINÁRIO

Deito em minha cama de sonho
e penso que vou dormir.
Um papel imaginário se estende sobre mim,
extenso como um lençol branco de nuvem.
Há ali um convite para a poesia
e a Musa não me deixa enquanto
as palavras não vêm.
Poesia são palavras transformadas em Arte,
que se interligam pelo fio da Beleza.
Escolhidas a dedo; a Poesia usa apenas
aquelas que vão dizer algo ao coração
não só pelos caracteres manuscritos,
mas pelos espaços em branco devidamente vazios.
Existe a poesia do preenchimento
e a poesia do esvaziamento.
Em meu leito poético
há mais nuvens que aviões.
Cada nuvem é uma poesia flanante
que carrega em si as marcas de um sonho.
Meu papel imaginário é intenso
e eu já posso dormir
com as marcas de desejo que ali deixei...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
23 de Agosto de 2014 (03h25min).


LOUCURAS

Sou o primeiro a chegar ao Templo.
Só há bancos vazios, mas ouço a voz do silêncio.
Percebo uma certa música e a raridade da paz.
Um homem descabelado chega.
Traz inquietação e numa das mãos
um rústico “display”* de amendoim.
Tento rememorar harmonias
de outros cultos passados ali,
mas a figura insólita do vendedor de amendoim
me desconcentra o culto interior.
O homem joga os saquinhos de amendoim no altar
e as brasas derrama no banco de madeira velha
sentando espalhafatosamente em cima.
Queria incendiar seu mundo interior
consagrando os grãos da fertilidade.
Há dois tipos de loucura religiosa:
a dos pretensos ritos purificadores
e a da simplicidade do Evangelho.
Cada um escolhe ou é escolhido pela sua!
Se teu coração estiver em paz
ouvirás uma canção do Espírito
no vazio do Templo.
Os loucos são filhos de Deus, creio.

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,
21 de Agosto de 2014 (05h51min).


* Lembro-me de ter comprado muitas vezes, quando fui estudar no Rio de Janeiro, na década de 80, amendoim torrado, que vinha embalado num saquinho de papel em forma de cone e era mantido quente por meio de uma engenhoca feita de um galão de tinta reciclado, dividido ao meio, onde, na parte de cima os saquinhos de amendoim eram dispostos em pé e, na metade inferior, uma “gavetinha” introduzia carvão em brasas para manter aquecido os saquinhos de papel com o amendoim torrado, enquanto não chegava às mãos do consumidor final. Tentei encontrar um nome para este invento na internet, mas não logrei êxito. Aceito sugestões para descrever melhor o utensílio.

COTIDIANO

Os primeiros raios de sol
acordam a casa de alvenaria aparente
onde vasos de plantas vários
– xaxins de subúrbio carioca –
ilustram o quintal tomado de quinquilharias.
E é pleno inverno: o sol
é apenas uma gentileza,
da Natureza, que acorda “marias”.
As telhas galvanizadas de um anexo,
para onde acorre um homem apressado,
rebrilham ainda tímidas
com o sol festeiro que desponta no horizonte.
Move-se junto um cachorro sonolento
na soleira da porta de entrada
e, do galinheiro, o galo responde ao sol
saindo dali o homem com meia dúzia de ovos nas mãos.
A chaleira apita um café preto iminente,
enquanto lá fora alguns carros transitam
no asfalto irregular, transportando
vidas reguladas pelo sistema.
Passado um tempo, o dia vê aquele homem sair,
após beijo protocolar na esposa.
Aquela “Maria” põe meia dúzia de crianças
a caminhar uniformizadas
– e com mochilas nas costas –
para a fundamental escola do bairro
que acolhe diariamente
os petizes das redondezas.

Em pouco tempo o subúrbio explode em alegria.
A algazarra de carros, bicicletas e gente
transitando alegremente no azáfama da vida
faz fervilhar a emoção da existência
longe de Copacabana.
Do mercado voltando, com verduras nas mãos,
a cozinha da casa se agita em polvorosa,
o rádio se esgoela no programa matinal,
as notícias invadem o cotidiano
e a música não para de tocar.
Rola a eterna pedra de Sísifo da casa,
das tarefas enfadonhas,
para manter um mínimo de organização,
alimentar família,
fazer as crianças acreditarem no amanhã...

Exceto pelas nuvens que expulsam o sol
e os pingos de chuva que teimam em cair.
Enquanto isso, o gato no quarto apertado
derruba o vidro de perfume barato
espalhando o cheiro pela casa
ao sabor da notícia urgente:
em São Paulo um avião Cessna cai sobre casas
morrendo todos os seus sete ocupantes.

Um trovão sacode os campos do Brasil...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

18 de Agosto de 2014 (06h08min).

UM SOFRIDO RISO INTERIOR

Num mundo mediano,
medíocre,
de homens bestializados
seguindo a maré,
a onda,
conduzidos pela mão invisível
do deus-Mercado;
seguindo a mídia,
o éter,
levados pelos conceitos de
pesquisas manipuladas;
seguindo a moda,
a merda,
uma certa mesmice de cabeças
doentes, doentias,
desaceleradas do verdadeiro
Amor...

Eu rio por dentro.
Riso sofrido, dorido,
e uma lágrima de sangue
escorre do meu
coração apertado;
e uma gota de suor
escorre dos meus olhos
que assim enxergam mais;
e um pingo de choro
sai-me dos poros
de uma derme sensível...

Josué Ebenézer – Nova Friburgo,

16 de Agosto de 2014 (06h).